A seriema entrou na disputa das aves mais barulhentas e mostrou que volume extremo não depende de uma única anatomia
Pesquisa com 123 espécies coloca a seriema entre as aves mais barulhentas e investiga como tamanho corporal e abertura do bico influenciam o volume
Um chamado que ultrapassa 120 decibéis colocou uma ave brasileira entre as candidatas ao título de mais barulhenta do planeta. Conhecida por suas vocalizações fortes e prolongadas, a seriema-de-perna-vermelha surpreendeu pesquisadores em um estudo que comparou os sons de 123 espécies de aves. Publicada em setembro de 2026, a investigação revelou que corpos maiores e bicos capazes de abrir amplamente favorecem vocalizações intensas. Entretanto, espécies muito diferentes conseguem alcançar volumes extremos, mostrando que ainda existem perguntas importantes sobre a evolução da comunicação sonora.
Por que a seriema-de-perna-vermelha está entre as aves mais barulhentas?
A seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata) é uma ave terrestre encontrada em campos, cerrados e outras áreas abertas da América do Sul. Conhecida por caminhar rapidamente e emitir chamados que podem ser ouvidos a grandes distâncias, ela utiliza vocalizações para comunicação e manutenção de territórios.
No estudo, seus chamados ultrapassaram 120 decibéis em medições padronizadas, colocando a espécie entre as mais intensas já registradas. O resultado chamou atenção porque a seriema possui anatomia bastante diferente daquela das arapongas, aves anteriormente conhecidas por vocalizações excepcionalmente fortes.
Como os cientistas mediram o canto da seriema-de-perna-vermelha?
Os pesquisadores João Menezes e Jeff Podos, da Universidade de Massachusetts Amherst, realizaram medições entre dezembro de 2018 e janeiro de 2025. O levantamento reuniu 123 espécies observadas no Brasil e nos Estados Unidos, incluindo 113 cujas amplitudes vocais ainda não haviam sido catalogadas.
Para comparar os resultados, a equipe utilizou medidores portáteis de pressão sonora e equipamentos a laser capazes de determinar a distância até as aves. Essa combinação permitiu estimar a intensidade dos chamados em condições padronizadas, reduzindo diferenças provocadas pela posição dos animais.
Os principais resultados incluem:
- 123 espécies de aves analisadas;
- 113 espécies sem medições anteriores comparáveis;
- Chamados superiores a 120 decibéis;
- Variação de aproximadamente 58 decibéis entre extremos;
- Associação entre tamanho corporal, abertura do bico e intensidade sonora.
O vídeo do canal Planeta Aves apresenta especificamente a seriema-de-perna-vermelha, incluindo suas vocalizações características e aspectos de seu comportamento.
Como aves diferentes conseguem produzir sons tão intensos?
Os resultados indicaram que aves maiores geralmente apresentam maior capacidade de produzir vocalizações fortes. Uma possível explicação envolve a musculatura respiratória e a quantidade de ar movimentada durante a emissão sonora. Entretanto, o tamanho corporal não explica sozinho todas as diferenças encontradas.
A abertura do bico também apresentou uma associação importante com a intensidade máxima. Um bico amplamente aberto pode favorecer a projeção do som, funcionando parcialmente como a abertura de determinados instrumentos musicais. Ainda assim, características da siringe, órgão vocal das aves, também participam da produção sonora.
O que o estudo revelou sobre a evolução dos chamados das aves?
Os pesquisadores investigaram cinco possíveis fatores associados à intensidade vocal: tamanho corporal, abertura do bico, capacidade de voo, densidade da vegetação e sistema de acasalamento. Apenas os dois primeiros apresentaram associações consistentes com vocalizações mais intensas.
O estudo publicado na revista Evolution, em 29 de setembro de 2026, mostrou que viver em florestas densas, possuir menor capacidade de voo ou apresentar determinados sistemas reprodutivos não explicava claramente o volume máximo. Isso enfraqueceu hipóteses ecológicas que pareciam intuitivas, mas não receberam apoio suficiente dos dados comparativos.

Como a seriema-de-perna-vermelha se compara às arapongas?
A investigação destacou três candidatas ao título de ave mais barulhenta: a seriema-de-perna-vermelha, a araponga-comum (Procnias nudicollis) e a araponga-da-amazônia (Procnias albus). As três conseguem produzir chamados extremamente intensos, embora apresentem diferenças na anatomia e no comportamento.
A classificação depende da maneira como o som é medido. A araponga-comum atingiu aproximadamente 122,4 decibéis em uma medida padronizada, enquanto a seriema apresentou valores próximos de 121 decibéis em outra comparação. Picos instantâneos podem produzir resultados diferentes.
| Ave ou grupo | Resultado da pesquisa |
|---|---|
| Seriema-de-perna-vermelha | Chamados superiores a 120 dB |
| Araponga-comum | Cerca de 122,4 dB em medição padronizada |
| Araponga-da-amazônia | Entre as maiores intensidades vocais registradas |
| Espécies menos intensas | Aproximadamente 64 dB no extremo inferior |
Por que a evolução favoreceu cantos tão barulhentos em algumas aves?
A intensidade sonora pode aumentar a distância de comunicação, facilitar a defesa territorial e participar da atração de parceiros. Entretanto, produzir sons extremos também envolve custos energéticos e possíveis limitações físicas, criando diferentes pressões evolutivas.
Os pesquisadores ainda não conseguiram identificar uma explicação ecológica universal para as vocalizações mais fortes. A descoberta mostra que características anatômicas ajudam a entender como determinadas aves alcançam volumes extraordinários, mas compreender por que essa capacidade evoluiu exige novas comparações entre espécies e ambientes.
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