O morcego pode ter levantado voo primeiro na Europa, e 137 pesquisadores combinaram genomas e fósseis para redesenhar uma história de 65 milhões de anos
Estudo com 103 genomas e 44 espécies fósseis aponta a Europa como provável origem dos morcegos e revela a evolução inicial do voo e da ecolocalização
Há aproximadamente 65 milhões de anos, pouco depois da extinção dos dinossauros não avianos, os ancestrais dos morcegos provavelmente começaram sua trajetória evolutiva na Europa. Uma pesquisa internacional publicada na revista Nature, em setembro de 2026, reuniu 137 cientistas de 64 países para reconstruir a origem dos morcegos. Ao combinar genomas de espécies atuais com fósseis antigos, o consórcio Bat1K encontrou evidências de que o voo ativo e a ecolocalização surgiram muito cedo na história desses mamíferos.
Por que a origem dos morcegos passou a ser localizada na Europa?
Durante décadas, pesquisadores propuseram diferentes regiões como berço evolutivo dos morcegos, incluindo Ásia, África e América do Norte. A dificuldade estava na escassez de fósseis antigos e na capacidade desses animais de atravessar grandes distâncias, tornando complexa a identificação de sua região ancestral.
A nova análise apontou a Europa como localização mais provável do ancestral comum dos morcegos, durante o Paleoceno Superior, entre aproximadamente 65 e 60 milhões de anos atrás. Essa conclusão resulta de modelos evolutivos que combinam informações genéticas, fósseis e reconstruções geográficas, não da descoberta de um esqueleto completo daquele período.
Como 137 pesquisadores reconstruíram a origem dos morcegos?
O consórcio internacional Bat1K analisou genomas de 103 espécies, representando todas as 21 famílias viventes de morcegos. Entre os materiais examinados estavam 42 novas montagens genômicas de alta qualidade, que permitiram comparar regiões cromossômicas e identificar relações evolutivas anteriormente difíceis de resolver.
Os cientistas também incorporaram 44 espécies fósseis e centenas de características anatômicas à investigação. Essa combinação ajudou a posicionar linhagens extintas na árvore evolutiva, oferecendo informações que não poderiam ser obtidas exclusivamente com o DNA dos animais atuais.
Os principais números da pesquisa incluem:
- 137 pesquisadores participantes;
- 64 países envolvidos;
- 103 genomas de morcegos;
- 21 famílias viventes representadas;
- 44 espécies fósseis analisadas.

O que os fósseis revelam sobre os primeiros morcegos voadores?
Os fósseis mais antigos conhecidos de morcegos pertencem ao Eoceno, período iniciado há aproximadamente 56 milhões de anos. Exemplares encontrados em diferentes continentes mostram que esses mamíferos já apresentavam adaptações ao voo relativamente cedo, embora ainda existam lacunas sobre as etapas anteriores de sua evolução.
Entre os fósseis importantes está Vielasia, um morcego extinto encontrado na França. Seu posicionamento próximo aos ramos mais antigos da árvore evolutiva reforçou a hipótese de que a ecolocalização laríngea já existia antes da diversificação dos principais grupos atuais.
Como voo e ecolocalização surgiram na evolução dos morcegos?
Os morcegos são os únicos mamíferos capazes de realizar voo ativo sustentado. Suas asas possuem membranas de pele sustentadas por dedos alongados. Já a ecolocalização permite identificar obstáculos e presas pela emissão de sons e interpretação dos ecos, embora nem todas as espécies atuais utilizem esse mecanismo da mesma maneira.
O estudo publicado na revista Nature, em 23 de setembro de 2026, indica que voo e ecolocalização surgiram perto da origem do grupo. Entretanto, os pesquisadores não determinaram definitivamente qual dessas capacidades apareceu primeiro, pois faltam fósseis que documentem suas etapas iniciais.
Como os morcegos se espalharam da Europa para outros continentes?
A reconstrução sugere que os primeiros morcegos se dispersaram da Europa para a África e, posteriormente, alcançaram outras regiões. Durante o Eoceno, diferentes linhagens expandiram sua distribuição pelas Américas, Ásia e Austrália, acompanhando transformações ambientais e geográficas.
Os modelos também indicam que Europa e África desempenharam papéis importantes na diversificação inicial. O aquecimento global associado ao Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, há aproximadamente 56 milhões de anos, coincidiu com parte dessa expansão evolutiva.
| Período | Evidência evolutiva |
|---|---|
| 65–60 milhões de anos | Origem provável dos morcegos na Europa |
| Início do Eoceno | Diversificação de linhagens antigas |
| Cerca de 56 milhões de anos | Expansões geográficas próximas ao aquecimento global |
| Eoceno | Fósseis documentam morcegos capazes de voar |
Por que a origem dos morcegos também interessa à medicina?
Além de reconstruir a história evolutiva, o projeto Bat1K criou uma importante coleção de genomas que poderá ajudar a investigar características biológicas desses animais. Algumas espécies apresentam longevidade excepcional para seu tamanho corporal e respostas imunológicas diferentes das observadas em outros mamíferos.
A comparação genética também poderá contribuir para pesquisas sobre resistência a doenças, envelhecimento e conservação. Entretanto, identificar adaptações presentes nos morcegos não significa que elas possam ser transferidas diretamente aos humanos. O principal avanço está na construção de uma base científica mais completa para investigar essas características.
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