Um gene do relógio biológico entrou no controle da gordura marrom, conectando hora do dia, temperatura e alimentação ao momento em que o tecido queima energia
Pesquisa identifica como a proteína SLC25A34 conecta relógio circadiano, frio e alimentação ao metabolismo energético em camundongos
O corpo possui um tipo especial de gordura que, em vez de apenas armazenar energia, utiliza nutrientes para produzir calor. Agora, cientistas identificaram um mecanismo molecular que conecta o relógio biológico à atividade da gordura marrom, permitindo que esse tecido responda ao frio e à alimentação. Publicada na revista Science, em outubro de 2026, a descoberta mostra como uma proteína chamada SLC25A34 participa da coordenação do metabolismo energético em camundongos.
Como o relógio biológico controla a atividade da gordura marrom?
A gordura marrom é especializada na produção de calor, processo conhecido como termogênese. Suas células possuem numerosas mitocôndrias e utilizam a proteína UCP1 para liberar parte da energia dos nutrientes diretamente como calor, em vez de convertê-la em ATP. Esse mecanismo ajuda os mamíferos a manter a temperatura corporal.
Entretanto, essa atividade não permanece constante. Em camundongos, o metabolismo da gordura marrom acompanha ritmos de aproximadamente 24 horas, apresentando menor atividade durante o repouso. O relógio biológico coordena essas oscilações, mas precisa permitir respostas rápidas quando mudanças ambientais exigem maior produção de calor.
Como a proteína SLC25A34 responde ao frio e à alimentação?
Pesquisadores da Universidade de Copenhague identificaram a SLC25A34 ao comparar dados de expressão genética, proteínas e mecanismos reguladores da gordura marrom. Nos camundongos, a exposição ao frio durante 24 horas aumentou aproximadamente 90 vezes a quantidade dessa proteína no tecido, revelando uma resposta metabólica intensa.
Os experimentos demonstraram que diferentes sinais convergem sobre o gene Slc25a34. Durante o repouso, proteínas reguladoras reduzem sua atividade. Entretanto, o frio e determinados estímulos nutricionais podem modificar esse controle, permitindo que as células adaptem seu metabolismo às necessidades energéticas.
Os principais mecanismos identificados foram:
- Relógio biológico: regula a expressão diária do gene;
- Frio: reduz a repressão exercida por proteínas reguladoras;
- Alimentação: influencia sinais relacionados ao metabolismo lipídico;
- PPARα: estimula a expressão do gene;
- SLC25A34: participa do transporte metabólico mitocondrial.

Por que a gordura marrom precisa fabricar gordura para depois queimá-la?
Um dos resultados mais interessantes envolve um aparente paradoxo metabólico. As células da gordura marrom podem sintetizar lipídios enquanto também os utilizam como combustível. Essa circulação de moléculas participa da manutenção das vias necessárias à produção de energia e calor.
A SLC25A34 parece facilitar esse processo transportando oxaloacetato para o interior das mitocôndrias. Quando os pesquisadores reduziram sua atividade, observaram alterações na distribuição de metabólitos, menor consumo de oxigênio e diminuição da expressão de genes relacionados à oxidação energética.
O que os experimentos revelaram sobre a função da SLC25A34?
A equipe utilizou camundongos geneticamente modificados e células cultivadas para investigar como a proteína funciona. Os resultados indicaram que sua ausência prejudica a capacidade metabólica da gordura marrom. Entretanto, o transporte direto de oxaloacetato ainda é uma hipótese sustentada por evidências celulares e modelos moleculares.
O estudo publicado na revista Science foi liderado por pesquisadores da Universidade de Copenhague, em colaboração com instituições internacionais. A investigação também identificou a participação de REV-ERBα, uma proteína associada ao relógio circadiano, e de PPARα, importante regulador do metabolismo dos lipídios.
Quais sinais determinam quando a gordura marrom utiliza energia?
O funcionamento desse tecido depende da integração entre condições ambientais, disponibilidade de nutrientes e regulação genética. Quando a temperatura diminui, por exemplo, a necessidade de produzir calor pode superar temporariamente o ritmo metabólico estabelecido pelo relógio biológico.
A alimentação também modifica esse equilíbrio. Em camundongos submetidos a uma dieta cetogênica com mais de 90% de gordura, o gene Slc25a34 apresentou forte aumento de expressão. Isso demonstra uma resposta molecular à composição da dieta, mas não comprova benefícios dessa alimentação para humanos.
| Sinal metabólico | Resposta identificada |
|---|---|
| Fase de repouso | REV-ERBα reduz a expressão do gene |
| Exposição ao frio | Aumento da proteína SLC25A34 |
| Dieta rica em gordura | Maior expressão de Slc25a34 |
| Ausência da proteína | Prejuízo ao metabolismo energético |
A descoberta sobre a gordura marrom pode ajudar no tratamento da obesidade?
A proteína SLC25A34 também existe em humanos. Experimentos com células de gordura marrom de quatro doadores mostraram que sua redução prejudicou determinados indicadores metabólicos. Além disso, análises de dados clínicos encontraram associações entre sua expressão no tecido adiposo subcutâneo e algumas medidas de saúde metabólica.
Essas observações, porém, não demonstram que estimular a proteína provoque emagrecimento. Os pesquisadores ainda precisam esclarecer suas funções em diferentes tecidos, incluindo o coração, e investigar consequências de longo prazo. Portanto, os resultados não justificam recomendações de exposição ao frio, dietas específicas ou intervenções destinadas a acelerar a queima de gordura.
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