O kākāpō, o papagaio que mostra como a conservação pode reverter uma extinção anunciada
Cada novo filhote representa um avanço importante para a sobrevivência da espécie
Um papagaio verde caminha pelo chão de uma floresta da Nova Zelândia, procurando alimento entre raízes e folhas, sem conseguir levantar voo. O kākāpō chegou tão perto da extinção que apenas 51 aves integravam sua população conhecida em 1995. Depois de décadas de proteção, monitoramento e cuidados reprodutivos, o país registrou 325 exemplares em 2026, mostrando como a conservação pode mudar o destino de uma espécie ameaçada.
Por que o kākāpō chegou tão perto da extinção?
O kākāpō quase desapareceu porque perdeu habitats e passou a enfrentar predadores introduzidos na Nova Zelândia. Como não consegue voar, tornou-se especialmente vulnerável a animais capazes de alcançá-lo no chão.
Segundo o Departamento de Conservação da Nova Zelândia, a espécie evoluiu em um ambiente sem os mesmos mamíferos predadores que seriam levados ao arquipélago pela atividade humana.
Ratos, gatos e arminhos passaram a representar ameaças importantes. Além de atacar aves adultas, alguns desses animais consomem ovos e filhotes, dificultando o nascimento de novas gerações.

Como a população de kākāpō chegou a 325 aves?
A recuperação ocorreu por meio de um programa que protege os animais, acompanha a reprodução e mantém populações em áreas livres de predadores. O trabalho é conduzido pelo governo neozelandês em parceria com o povo indígena Ngāi Tahu e outras organizações.
Em 1º de setembro de 2026, o DOC anunciou a inclusão de 90 filhotes na população oficial. Com isso, a contagem chegou ao maior nível registrado desde o início da recuperação moderna.
Os filhotes entraram no levantamento depois de atingir a idade usada pelo programa para considerá-los suficientemente independentes. O resultado veio após uma temporada reprodutiva que encerrou um intervalo de quatro anos sem reprodução.
O que torna esse papagaio tão diferente das outras aves?
O kākāpō é um papagaio noturno, de corpo pesado e plumagem verde que ajuda a escondê-lo na vegetação. Seus movimentos são adaptados à vida terrestre, embora também consiga escalar árvores.
Entre suas características estão:
- Ausência de voo: as asas não permitem sustentar o corpo no ar como acontece com outros papagaios.
- Hábitos noturnos: o animal costuma procurar alimento durante a noite.
- Grande porte: os machos podem alcançar aproximadamente 4 kg.
- Reprodução incomum: os machos produzem sons graves para atrair fêmeas durante a época reprodutiva.
Esse conjunto de características tornou a espécie muito diferente dos papagaios encontrados nas florestas brasileiras.
Como os cientistas acompanham cada ave nas ilhas protegidas?
Os conservacionistas utilizam pequenos transmissores de rádio para acompanhar a localização e as atividades dos kākāpō. Os equipamentos permitem identificar movimentos associados ao acasalamento e à formação de ninhos.
O Programa Kākāpō Recovery descreve o funcionamento desses transmissores, que ajudam as equipes a tomar decisões sem precisar permanecer constantemente perto dos animais.
Os pesquisadores também estudam a diversidade genética da população. Esse cuidado é importante porque um grupo pequeno de aves pode apresentar parentesco elevado, dificultando a reprodução saudável ao longo das gerações.
Em outras regiões, a proteção de aves ameaçadas depende de técnicas diferentes. Um exemplo é o uso de espantalhos flutuantes para afastar aves ameaçadas de redes de pesca, reduzindo encontros perigosos com atividades humanas.
Por que o kākāpō não se reproduz todos os anos?
A reprodução do kākāpō está ligada à produção abundante de frutos da árvore rimu, encontrada nas florestas neozelandesas. Quando há alimento suficiente, as fêmeas têm melhores condições de criar filhotes.
Essa relação faz com que a espécie passe intervalos longos sem uma grande temporada reprodutiva. Mesmo protegidas de predadores, as aves não aumentam sua população rapidamente.
Os conservacionistas podem oferecer alimentação complementar e acompanhar ovos vulneráveis. Porém, o programa busca permitir que cada vez mais filhotes sejam criados naturalmente pelas próprias mães.
O kākāpō já está livre do risco de extinção?
Não. O kākāpō continua criticamente ameaçado. Embora a população tenha aumentado, ela ainda é pequena e depende de áreas seguras para sobreviver.
O principal desafio é ampliar os habitats protegidos, mantendo o controle de predadores e evitando doenças capazes de atingir muitos animais de uma população reduzida.
O crescimento registrado em 2026 mostra que a proteção continuada pode funcionar. Mas a recuperação completa dependerá de novas gerações, diversidade genética e ambientes onde o papagaio consiga sobreviver com menos intervenção humana.
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