Dentes de wallaby pareciam apenas restos de comida até surgir uma resina escura: peças de 1.200 anos podem ter formado adornos aborígenes
Nenhum dos doze dentes tinha marcas de uso como ferramenta, reforçando a função decorativa das peças

O que você vai ver
- Onde fica o abrigo rochoso onde os dentes foram encontrados.
- Como os pesquisadores descobriram que a resina não era uma única substância.
- Por que a ausência de marcas de uso como ferramenta foi a pista decisiva.
- Qual foi o papel dos Traditional Owners e da equipe Laura Ranger na pesquisa.
- Por que esse achado é considerado inédito fora de contextos funerários.
Doze dentes de wallaby pareciam, à primeira vista, apenas restos de uma refeição antiga, até que pequenas massas de resina escura aderidas a eles revelassem que aquelas peças, de 1.200 anos de idade, provavelmente formaram parte de adornos usados pelos povos aborígenes do norte da Austrália.
Onde fica o abrigo rochoso onde os dentes foram encontrados?
Os doze dentes de wallaby foram encontrados em Windmill Way, um abrigo rochoso localizado na região conhecida como Quinkan Country, na Península de Cape York, no estado de Queensland, norte da Austrália, área rica em sítios arqueológicos associados à ocupação aborígene de longa duração.
Esse tipo de abrigo rochoso costuma preservar material orgânico frágil, como resina vegetal e fibras, de forma muito mais eficaz do que sítios a céu aberto, condição que ajuda a explicar por que elementos tão delicados sobreviveram por mais de um milênio sem se decompor completamente antes de serem redescobertos pelos arqueólogos.
Como os pesquisadores descobriram que a resina não era uma única substância?
Usando espectroscopia de infravermelho e cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa, a equipe de pesquisa identificou que todos os doze dentes foram fixados com resina extraída de árvores do gênero Xanthorrhoea, conhecidas popularmente como "grass-trees", mas que um dos dentes continha adicionalmente resina de madeira-de-ferro, combinação que revela conhecimento botânico específico sobre diferentes fontes de resina disponíveis na região.
Essa variação na composição da resina entre as peças sugere que os artesãos responsáveis pela confecção desses adornos não usavam qualquer resina disponível de forma indiscriminada, mas selecionavam materiais específicos, possivelmente por razões de disponibilidade sazonal, propriedades adesivas ou até preferência cultural transmitida entre gerações de uma mesma comunidade.
Por que a ausência de marcas de uso como ferramenta foi a pista decisiva?
Os doze dentes examinados não apresentavam nenhum sinal de desgaste compatível com uso como ferramenta de corte, perfuração ou raspagem, ausência que levou os pesquisadores a descartar a hipótese de que se tratassem simplesmente de instrumentos utilitários descartados e reforçou a interpretação de que cumpriam função decorativa.
Combinada aos vestígios de fibras vegetais e couro aderidos à resina, essa ausência de marcas de uso sustenta a hipótese de que os dentes estivessem originalmente amarrados a uma faixa de cabeça ou colar, com as pequenas bolas de resina funcionando como batentes para impedir que as peças escorregassem e se perdessem do adorno ao longo do uso.
Qual foi o papel dos Traditional Owners e da equipe Laura Ranger na pesquisa?
A pesquisa, liderada pela arqueóloga Lynley Wallis, da Universidade Griffith, com coautoria de Carney Matheson, da mesma instituição, contou com colaboração direta dos Traditional Owners da região e da equipe Laura Ranger, cujo conhecimento tradicional sobre as plantas locais foi essencial para identificar corretamente as fontes botânicas da resina usada nos adornos.
Essa colaboração entre arqueólogos e comunidades aborígenes detentoras de conhecimento tradicional sobre o território é cada vez mais comum, e muitas vezes decisiva, em pesquisas arqueológicas na Austrália, já que identificar com precisão espécies vegetais específicas usadas há mais de mil anos depende de um conhecimento botânico local que raramente está disponível apenas através de análises laboratoriais isoladas.
Por que esse achado é considerado inédito fora de contextos funerários?
Até esse achado em Windmill Way, adornos de dentes fixados com resina já haviam sido documentados principalmente em contextos funerários, associados a sepultamentos específicos, o que torna esse conjunto de doze dentes o primeiro registro conhecido desse tipo de adorno encontrado fora de um contexto de sepultamento no nordeste da Austrália.
Essa distinção importa porque adornos encontrados fora de contextos funerários sugerem um uso mais cotidiano ou cerimonial recorrente, possivelmente ligado a práticas sociais do dia a dia da comunidade, diferente de peças depositadas especificamente como parte de um ritual funerário único, o que amplia a compreensão sobre como esses adornos circulavam dentro da vida social dos grupos aborígenes da região.
Uma descoberta igualmente improvável em ambiente de difícil acesso aparece no relato sobre o recife de coral considerado morto por seis décadas que surpreendeu mergulhadores diante da costa do Benin. Mais detalhes sobre a pesquisa estão disponíveis na reportagem do Phys.org.
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