Um dente de capivara apareceu onde quase nada deveria sobreviver sem água: fóssil de 9 milhões de anos desafia a história do Atacama
Molar de um parente extinto das capivaras revela indícios de rios, vegetação e antigos corredores úmidos no norte do Chile
Um pequeno fragmento de molar encontrado no norte do Chile revelou um passado surpreendentemente úmido em uma das regiões mais secas do planeta. O fóssil de capivara, atribuído ao gênero extinto Cardiatherium, tem aproximadamente 8,8 milhões de anos e indica que partes do atual deserto do Atacama abrigavam ambientes com água doce, vegetação e condições favoráveis a grandes mamíferos semiaquáticos.
Por que um fóssil de capivara surpreendeu os pesquisadores no Atacama?
As capivaras modernas dependem de rios, lagoas e áreas úmidas para desenvolver suas atividades. Encontrar vestígios de seus parentes extintos em uma região atualmente hiperárida representa, portanto, uma evidência importante de mudanças ambientais ocorridas ao longo de milhões de anos.
O material foi identificado na localidade de El Morro, pertencente à Formação Bahía Inglesa, na região chilena do Atacama. Trata-se de parte do terceiro molar superior esquerdo, catalogado como MPC 3000. Suas características permitem reconhecer o gênero Cardiatherium, embora não seja possível estabelecer a espécie com segurança.
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Como os cientistas descobriram a idade do fóssil de capivara?
A idade estimada não veio da datação direta do dente. Os pesquisadores estudaram a sequência geológica utilizando métodos geocronológicos, incluindo análises de urânio-chumbo em cristais de zircão associados aos depósitos sedimentares.
Os resultados situaram o material entre aproximadamente 9,6 e 7,9 milhões de anos, com estimativa central de 8,8 milhões de anos. Esse intervalo corresponde ao Mioceno tardio, período marcado por importantes transformações ambientais na América do Sul.
As principais informações da descoberta são:
- Fóssil identificado como parte de um molar;
- Gênero extinto Cardiatherium;
- Idade estimada de 8,8 milhões de anos;
- Localização na Formação Bahía Inglesa, no Chile;
- Evidências associadas a antigos ambientes úmidos.

Quais evidências mostram que o Atacama já teve rios e vegetação?
O dente fossilizado não é a única indicação de um ambiente diferente do atual. Análises de isótopos estáveis em carbonatos formados em antigos solos revelaram sinais de vegetação dominada por plantas com metabolismo fotossintético C3, comuns em diversos ambientes não desérticos.
Os pesquisadores também examinaram fitólitos, estruturas microscópicas de sílica produzidas por plantas. Os vestígios indicaram a presença de palmeiras e outras angiospermas. Associadas aos registros de animais aquáticos, essas evidências sustentam a reconstrução de corredores fluviais e áreas úmidas persistentes, sem demonstrar que todo o Atacama fosse coberto por florestas.
O que o estudo sobre o Atacama revela acerca das antigas capivaras?
Publicado em setembro de 2026, o estudo científico na Scientific Reports reuniu evidências paleontológicas, geológicas e botânicas. A pesquisa, liderada por Carolina Gutstein e colaboradores, interpreta a ocorrência de Cardiatherium como indicação de conectividade entre ambientes úmidos da América do Sul.
Existem diferentes hipóteses para explicar essa distribuição. Uma considera corredores através dos Andes; outra propõe uma rota mais ao norte, conectando sistemas hidrográficos amazônicos à margem do Pacífico. Nenhum desses caminhos foi demonstrado diretamente pelo dente, mas ambos ajudam a investigar antigas conexões continentais.
Como era a paisagem onde o animal viveu há quase 9 milhões de anos?
A reconstrução ambiental sugere uma paisagem costeira com cursos de água doce, vegetação ribeirinha e ambientes associados a depósitos marinhos rasos. Esses ecossistemas poderiam sustentar herbívoros semiaquáticos, além de outros animais ligados aos sistemas fluviais.
Entretanto, a presença de ambientes úmidos não significa ausência completa de aridez regional. É possível que áreas secas coexistissem com vales vegetados e zonas de água permanente, formando uma paisagem ambientalmente diversificada.
| Evidência | Interpretação científica |
|---|---|
| Molar de Cardiatherium | Presença de parente extinto das capivaras |
| Isótopos em carbonatos | Vegetação dominada por plantas C3 |
| Fitólitos | Presença de palmeiras e outras plantas |
| Fósseis aquáticos | Indícios adicionais de ambientes com água doce |
A descoberta significa que o Atacama nem sempre foi um deserto?
A descoberta questiona interpretações segundo as quais a hiperáridez teria permanecido praticamente contínua durante dezenas de milhões de anos. As evidências indicam que, pelo menos em determinados setores costeiros, existiram condições mais úmidas durante o Mioceno tardio.
Ainda é necessário investigar a extensão geográfica e a duração desses ambientes. O fóssil não estabelece quando começou a aridez atual, mas amplia o conhecimento sobre as transformações climáticas do Atacama e demonstra como pequenos vestígios podem revelar mudanças profundas na história ambiental de uma região.
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