Milhões de lagos congelam no inverno e esse brilho branco pode estar resfriando o Hemisfério Norte mais do que se imaginava
Em florestas boreais, os lagos congelados podem responder por mais de um quarto de todo o resfriamento gerado pela neve

O que você vai ver
- O que o novo estudo da Universidade Duke analisou ao longo de 22 anos.
- Por que um lago congelado reflete mais luz solar do que a terra ao redor dele.
- Quanto esse efeito de resfriamento chega a representar em florestas boreais.
- Por que o fim da primavera é o momento em que essa diferença mais aparece.
- Por que essa descoberta não significa que os lagos podem conter o aquecimento global.
Milhões de lagos congelam todo inverno no Hemisfério Norte, e o brilho branco da neve e do gelo sobre essas superfícies pode estar resfriando a região de forma mais significativa do que os modelos climáticos atuais levam em conta.
O que o novo estudo da Universidade Duke analisou ao longo de 22 anos?
A pesquisadora Sarah Cooley, da Universidade Duke, liderou um estudo que analisou 22 anos de observações de satélite, comparando a cobertura sazonal de neve e a quantidade de luz solar refletida por lagos e pela terra próxima a eles em diferentes regiões do Hemisfério Norte.
Esse período extenso de dados permitiu à equipe isolar um padrão consistente: lagos cobertos por neve e gelo refletem, de forma sistemática, uma proporção maior da radiação solar recebida do que a vegetação e o solo das áreas imediatamente ao redor, efeito que os pesquisadores batizaram de albedo mais elevado dos lagos congelados.

Por que um lago congelado reflete mais luz solar do que a terra ao redor dele?
A medição direta do efeito mostrou que a superfície dos lagos produzia um resfriamento de 14,4 watts por metro quadrado, contra apenas 8,2 watts por metro quadrado registrados na terra próxima, diferença que indica uma capacidade de reflexão de luz solar bem superior por parte da água congelada em comparação ao solo e à vegetação vizinhos.
Essa diferença de reflexão acontece porque a superfície lisa e uniforme do gelo sobre um lago tende a manter uma cobertura de neve mais consistente e por mais tempo do que terrenos irregulares, cobertos por árvores, arbustos ou relevo variado, que expõem mais pontos escuros capazes de absorver, em vez de refletir, a radiação solar recebida.
Quanto esse efeito de resfriamento chega a representar em florestas boreais?
Em regiões de floresta boreal, onde lagos congelados são especialmente numerosos, o estudo identificou que esses corpos d’água podem ser responsáveis por mais de um quarto de todo o efeito de resfriamento gerado pela neve e pelo gelo na região, parcela expressiva para um elemento da paisagem frequentemente deixado de fora dos modelos climáticos tradicionais.
Essa proporção elevada se explica pela combinação entre a grande quantidade de lagos espalhados por essas florestas e a capacidade de reflexão superior de cada um deles, efeito que, somado em escala regional, passa a representar uma fatia relevante do resfriamento total atribuído à cobertura de neve e gelo em latitudes mais altas do Hemisfério Norte.
Por que o fim da primavera é o momento em que essa diferença mais aparece?
A vantagem de resfriamento dos lagos se torna particularmente significativa no fim da primavera, período em que a neve sobre a terra já começa a derreter mais cedo, expondo solo e vegetação escuros, enquanto os lagos ainda mantêm uma cobertura de gelo reflexiva por mais tempo antes de derreter completamente.
Essa defasagem no derretimento, com os lagos retendo a cobertura de gelo depois que a terra ao redor já perdeu boa parte da neve, é o que faz a diferença de reflexão entre os dois ambientes se tornar mais pronunciada justamente na transição entre o inverno e o verão, momento em que a radiação solar recebida já é bem mais intensa.

Por que essa descoberta não significa que os lagos podem conter o aquecimento global?
Os próprios pesquisadores responsáveis pelo estudo, publicado na revista científica Geophysical Research Letters e detalhado em reportagem do Phys.org, fizeram questão de ressaltar que a descoberta não sugere que os lagos sejam capazes de compensar os efeitos do aquecimento global, mas sim que esse componente climático específico vinha sendo negligenciado nos modelos preditivos usados atualmente.
Incorporar o efeito de resfriamento dos lagos congelados a esses modelos tende a melhorar a precisão das projeções climáticas para o Hemisfério Norte, sem alterar a conclusão mais ampla de que a tendência geral de aquecimento do planeta permanece inalterada, já que o efeito identificado é regional e sazonal, não uma força capaz de reverter uma tendência climática de escala global.
- Um estudo da Universidade Duke analisou 22 anos de dados de satélite sobre lagos congelados no Hemisfério Norte.
- Lagos congelados resfriam o ambiente em 14,4 watts por metro quadrado, contra 8,2 watts da terra próxima.
- Em florestas boreais, os lagos podem responder por mais de um quarto do resfriamento total da neve e do gelo.
- Pesquisadores reforçam que o efeito não compensa o aquecimento global, apenas melhora a precisão dos modelos climáticos.
Este artigo dá continuidade ao relato sobre a esteira de difusão que físicos do CERN levaram 20 anos para confirmar dentro do plasma de quarks e glúons.
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