Depois de fechar cerca de 100 lojas numa primeira recuperação, rede volta à falência dois anos depois e encerra as 261 unidades restantes, porque a reestruturação anterior não corrigiu custos e vendas suficientes para sustentar a operação
Golden Gate Capital assumiu o controle acionário da empresa, antes listada em bolsa, ao converter a maior parte da dívida em participação

O que você vai ver
- Qual rede de acessórios femininos voltou à falência pela segunda vez em dois anos.
- Por que a primeira recuperação judicial não foi suficiente para salvar a empresa.
- Quanto a empresa devia e quanto tinha em caixa no momento do segundo pedido.
- O que aconteceria com os cartões-presente ainda não utilizados pelos clientes.
- Quais outros fatores externos pesaram contra a segunda tentativa de recuperação.
Depois de fechar cerca de 100 lojas numa primeira recuperação judicial, uma rede de acessórios femininos voltou à falência apenas dois anos depois e anunciou o encerramento total das 261 unidades restantes, desfecho atribuído ao fato de que a reestruturação anterior não havia corrigido custos e vendas o suficiente para sustentar a operação no longo prazo.
Qual rede de acessórios femininos voltou à falência pela segunda vez em dois anos?
A empresa em questão é a Charming Charlie, rede americana fundada em 2004 em Houston, conhecida por organizar bijuterias, bolsas e acessórios por cor, em vitrines que chegavam a oferecer até 26 opções cromáticas diferentes, e que pediu proteção via Chapter 11 pela segunda vez em 11 de julho de 2019.
A primeira passagem da empresa pela recuperação judicial havia ocorrido entre dezembro de 2017 e abril de 2018, processo que resultou no fechamento de cerca de 100 lojas, mas que, segundo a própria companhia, não foi capaz de estabilizar o negócio nem garantir rentabilidade de longo prazo para as cerca de 261 lojas que seguiram operando em 38 estados americanos.
Houston-based Charming Charlie has filed for Chapter 11 for a second time and will close all of its stores. More details: https://t.co/hqmxsdjZd5 https://t.co/MfdZrKKBFz
— KHOU 11 News Houston (@KHOU) July 12, 2019
Por que a primeira recuperação judicial não foi suficiente para salvar a empresa?
Em documentos do segundo processo, a Charming Charlie reconheceu diretamente que os esforços de reestruturação da primeira falência “simplesmente não foram suficientes para estabilizar os negócios da empresa e garantir lucratividade de longo prazo”, frase que resume por que o alívio obtido em 2018 acabou sendo apenas temporário.
Esse reconhecimento direto é incomum em processos de falência, já que a maioria das empresas tende a atribuir uma segunda quebra a fatores externos recentes, não a uma falha explícita da própria reestruturação anterior, o que torna o caso da Charming Charlie um exemplo claro de recuperação judicial que resolveu sintomas sem corrigir as causas estruturais do problema.
Quanto a empresa devia e quanto tinha em caixa no momento do segundo pedido?
Documentos do processo mostraram que a Charming Charlie acumulava cerca de 82 milhões de dólares em dívidas, equivalentes a aproximadamente R$ 435 milhões, mas dispunha de apenas 6 mil dólares em caixa no momento do pedido, quantia equivalente a cerca de R$ 32 mil, praticamente nada diante do tamanho da operação que ainda mantinha.
Para sustentar o processo de liquidação, a empresa obteve 13 milhões de dólares em financiamento emergencial, cerca de R$ 69 milhões, enquanto projetava arrecadar até 30 milhões de dólares, por volta de R$ 159 milhões, com as vendas de liquidação das 261 lojas remanescentes, recursos destinados a cobrir credores e o encerramento ordenado da operação.
O que aconteceria com os cartões-presente ainda não utilizados pelos clientes?
No momento do segundo pedido de falência, a Charming Charlie tinha cerca de 19,8 milhões de dólares em cartões-presente ainda não utilizados pelos clientes, equivalentes a aproximadamente R$ 105 milhões, dos quais a empresa estimava que cerca de 7,8 milhões de dólares, por volta de R$ 41 milhões, ainda seriam efetivamente resgatados antes do encerramento total das lojas.
Esse volume de cartões pendentes se tornou mais uma obrigação a ser equacionada dentro do processo de liquidação, já que clientes com saldo ainda disponível precisaram correr para utilizá-lo nas lojas físicas antes do fechamento definitivo, prática comum em processos de falência que envolvem grande volume de cartões-presente em aberto.

Quais outros fatores externos pesaram contra a segunda tentativa de recuperação?
Além da fragilidade financeira herdada da primeira reestruturação, a Charming Charlie também apontou o declínio geral do varejo físico, o impacto de tarifas comerciais sobre o poder de compra dos consumidores e um período de mau tempo que reduziu o fluxo de clientes nas lojas logo no início daquele mesmo ano como fatores que se somaram contra a segunda tentativa de recuperação.
A combinação desses fatores externos com uma base financeira já fragilizada pela primeira falência deixou a empresa sem margem de manobra para tentar uma terceira reestruturação, levando a administração a optar diretamente pela liquidação total da operação, em vez de buscar um novo plano de reorganização.
Empresas que também recorreram duas vezes à falência antes de encerrar totalmente a operação aparecem no relato sobre a rede de roupas para jovens que fechou 154 lojas de uma só vez por disputa com fornecedor.
Mais detalhes sobre a segunda falência da Charming Charlie estão disponíveis na reportagem da CBS News.
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