Lula e sua bolha

06.10.2026

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Redação O Antagonista
10 minutos de leitura 06.10.2026 18:13 comentários
Análise

Lula e sua bolha

Especialista em comunicação estratégica afirma que o presidente passou boa parte do governo enclausurado politicamente e isso foi um erro gritante

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Redação O Antagonista
10 minutos de leitura 06.10.2026 18:13 comentários 0
Lula e sua bolha
Lula. Foto: Ricardo Stuckert

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 deveria acender um alerta profundo no entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa da eleição à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram 56,1 milhões de votos contra 53,9 milhões — uma diferença de mais de 2,2 milhões de votos.

Não é uma distância enorme. Mas, politicamente, é um resultado que exige uma leitura muito além dos números.

Lula precisa sair da bolha.

E quem está ao redor dele precisa compreender isso.

Na minha avaliação, esse talvez seja um dos maiores problemas do Lula 3. O presidente passou boa parte do governo enclausurado politicamente em um ambiente pequeno, cercado majoritariamente por pessoas que conhece há décadas, por lideranças tradicionais de seu campo político e por uma estrutura que parece ter perdido a capacidade de colocar diante dele visões diferentes sobre o Brasil.

Faltou gente nova. Faltou pensamento novo. Faltou contraponto.

Um grande líder não se faz apenas por sua própria capacidade. Faz-se também pela qualidade e, sobretudo, pela diversidade das cabeças que coloca ao seu redor.

O Brasil de 2026 não é o Brasil de 2002.

A comunicação mudou. A sociedade mudou. A direita surgiu. A esquerda mudou. O eleitor mudou. As redes sociais transformaram completamente a circulação da informação. A polarização alterou a maneira como milhões de brasileiros enxergam a política.

É preciso enxergar esse país sem paixão, sem fanatismo e sem filtro partidário.

E Lula, na minha leitura, passou tempo demais sem enxergá-lo dessa maneira.

Quatro pontos ajudam a explicar como Lula chegou a este resultado.

1. A comunicação foi tratada como questão secundária

O primeiro grande erro do Lula 3 aconteceu muito antes da campanha eleitoral.

Aconteceu na comunicação do governo.

Durante todo o mandato, o governo não conseguiu construir uma comunicação institucional forte, integrada e permanente, capaz de conectar políticas públicas, ministérios, entregas e a vida real das pessoas.

Lula retornou ao Planalto com um discurso de reconstrução.

Mas reconstruir não basta. É preciso comunicar a reconstrução.

E governo não comunica retrospectivamente.

Comunicação pública não pode aparecer às vésperas de uma eleição para explicar aquilo que deveria ter sido contado durante quatro anos.

Comunicação é construção diária.

Na minha avaliação, durante boa parte do Lula 3 predominou uma comunicação reativa: administrar crise, responder declarações do presidente, corrigir ruídos, apagar incêndios.

Isso é gerenciamento de crise. Não é uma estratégia completa de comunicação de governo.

A comunicação institucional precisa acompanhar a política pública desde sua concepção até a entrega. Precisa transformar números em histórias. Precisa mostrar para a população o que mudou concretamente em sua vida.

O próprio critério inicialmente utilizado por Lula para uma área tão estratégica ajuda a ilustrar o problema. Paulo Pimenta assumiu a Secretaria de Comunicação da Presidência sem que sua trajetória profissional tivesse sido construída na área da comunicação estratégica de governo.

Posteriormente houve mudança no comando e uma tentativa de tornar a comunicação do presidente mais pessoal e eficiente.

Mas o problema era maior.

O Lula 3 nunca conseguiu consolidar uma comunicação institucional macro, permanente, estratégica e conectada às entregas das diferentes áreas do governo.

Quando isso não acontece durante quatro anos, não existe campanha de algumas semanas capaz de recuperar completamente o tempo perdido.

Perde-se algo ainda mais importante: conexão.

2. Janja e a consolidação da bolha

O segundo ponto é mais delicado.

Rosângela da Silva, a Janja, tornou-se uma figura de enorme influência no entorno presidencial.

É absolutamente legítimo que uma esposa seja próxima, confidente e importante para o marido. A questão muda quando se trata do presidente da República e quando essa proximidade alcança o ambiente político, institucional e os acessos ao chefe do Executivo.

O problema não é Lula ouvir Janja.

O problema é Lula ouvir poucas pessoas.

E, principalmente, permitir que o acesso a ele seja submetido ao crivo de terceiros.

Esse crivo precisa ser de Lula.

É Lula quem deve decidir quem escuta, quem recebe, com quem conversa e quais ideias deseja conhecer. Essa função não deveria ser delegada à esposa, aos filhos ou a qualquer pessoa de seu círculo pessoal.

Lula precisa ter acesso a pessoas novas. Inclusive dentro e fora de seu campo político.

Há profissionais, técnicos, gestores e pessoas que ajudaram a executar políticas públicas, defenderam governos de seu campo político, executaram comunicação estratégica, enfrentaram crises e construíram projetos ao longo dos últimos anos e que, muitas vezes, sequer tiveram oportunidade de apresentar ao presidente aquilo que conhecem.

É disso que se trata.

Lula precisa furar a bolha em torno dele.

Há ainda outro componente fundamental: Lula não vive diretamente o ambiente digital da mesma forma que milhões de brasileiros.

O presidente já falou publicamente sobre sua relação limitada com celular e redes sociais. Isso significa que boa parte da percepção que recebe desse universo inevitavelmente passa por terceiros.

E o mundo mudou justamente ali.

As eleições brasileiras já vinham sendo fortemente influenciadas pelas redes sociais. Em 2026, essa dinâmica se tornou ainda mais central.

Se o presidente não está diretamente inserido nesse ambiente e, ao mesmo tempo, restringe seu círculo de interlocutores, o risco é evidente: o mundo que chega até Lula pode não ser o mesmo mundo que está do lado de fora do Palácio.

Depois do resultado deste domingo, entretanto, algo me chamou atenção.

A cena escolhida para a primeira manifestação foi, do ponto de vista da comunicação, ruim. Lula apareceu cercado por lideranças que também haviam acabado de sofrer derrotas eleitorais. As próprias expressões transmitiam o peso daquele resultado.

Mas Lula, individualmente, mostrou outra coisa.

O tom mudou.

A postura mudou.

Até sua voz pareceu diferente.

Por alguns minutos apareceu novamente o Lula político que o Brasil conheceu durante décadas. E um gesto foi especialmente simbólico: Lula trouxe Geraldo Alckmin para perto e fez questão de destacar a importância daquela aliança.

Era uma imagem poderosa.

Mas era uma imagem que deveria ter sido construída durante todo o Lula 3.

Lula e Alckmin representavam algo politicamente muito maior do que uma chapa eleitoral: dois homens que estiveram durante décadas em campos adversários e que decidiram construir juntos um governo.

A reconstrução anunciada pelo governo poderia ter sido simbolizada por essa dupla.

Não foi.

Durante grande parte do governo e novamente durante a campanha, Alckmin esteve muito aquém do protagonismo político que aquela aliança permitiria.

Em seu lugar, Janja ocupou enorme espaço público e político ao lado do presidente.

Esteve em agendas, palanques e discussões políticas. Fez contrapontos a adversários e protagonizou episódios controversos. Alguns deles acabaram produzindo exatamente o contrário daquilo que uma primeira-dama politicamente ativa deveria buscar: em vez de ampliar pontes, aumentaram sua rejeição em determinados segmentos.

Somente depois de perder o primeiro turno Lula volta a colocar Alckmin ostensivamente ao seu lado.

Talvez seja apenas uma fotografia.

Mas talvez seja o primeiro sinal de que Lula percebeu que alguma coisa esta errada.

3. O fantasma da corrupção voltou à campanha

Existe outro elemento que não pode ser relativizado: as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Às vésperas da eleição, investigações da Polícia Federal envolvendo o filho do presidente ganharam enorme repercussão. Lulinha é investigado em três inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência e corrupção em benefício de empresas junto ao governo federal. Sua defesa nega irregularidades e questiona elementos das investigações.

Esse cuidado jurídico é indispensável: investigação não significa condenação.

Mas política também é percepção.

E, eleitoralmente, o caso trouxe novamente para perto de Lula uma palavra que seus adversários exploram há décadas: corrupção.

Independentemente do desfecho jurídico dessas investigações, seu impacto político não pode ser desprezado.

O assunto surgiu justamente no período mais sensível de uma eleição extremamente polarizada.

4. O STF entrou na eleição — e Lula paga essa conta

O quarto ponto é o mais complexo de todos.

O Supremo Tribunal Federal.

Mais especificamente, a atuação e a percepção de politização em torno de alguns de seus ministros.

Não é possível analisar a eleição de 2026 ignorando o espaço ocupado pelo Supremo no debate público brasileiro.

A questão aqui não é discutir a necessidade de instituições fortes.

Democracia exige instituições fortes.

A questão é outra:

quando parte expressiva da sociedade passa a perceber o Judiciário como ator político, essa percepção produz consequência política.

E Lula não foi simplesmente associado a ministros do Supremo por seus adversários.

O próprio presidente produziu inúmeros gestos públicos de proximidade.

Em julho, microfones de uma cerimônia no Palácio do Planalto registraram Lula convidando Alexandre de Moraes para tomar um café depois do evento.

Em agosto, Lula e o então presidente do Senado, Davi Alcolumbre, participaram de um jantar na residência de Alexandre de Moraes. Segundo relatos publicados na imprensa, o encontro serviu também para uma reaproximação política entre Lula e Alcolumbre e tratou de temas relevantes da relação entre Executivo e Legislativo. Um presidente politicamente forte recebe seus interlocutores. Mais do que isso: quando um presidente é politicamente forte, a disputa é para ser recebido por ele.

Em pleno palanque, já nos últimos dias de campanha em Belém do Pará, Lula telefonou para o ministro Flávio Dino e tentou colocá-lo para falar com o público. O gesto ocorreu em meio a decisões e posturas do próprio ministro que eram, e continuam sendo, objeto de forte questionamento no debate político e eleitoral.

Alguns gestos  podem ser perfeitamente naturais na relação institucional entre autoridades da República.

Mas política não é feita apenas de legalidade.

É feita também de símbolos.

E símbolos têm peso ainda maior quando uma eleição ocorre sob forte debate a respeito dos limites de atuação do Supremo.

E essa discussão não ficou restrita à eleição presidencial. Decisões do Supremo atravessaram disputas estaduais em pleno processo eleitoral, ao mesmo tempo em que posturas públicas e políticas de ministros, além de sucessivas controvérsias e escândalos envolvendo integrantes da Corte, ampliaram em parte da sociedade a percepção de politização, de comprometimento da imparcialidade e de ausência de mecanismos efetivos de contenção desses excessos.

Diante disso, a minha leitura é que, no primeiro turno, Lula perdeu para si mesmo. Parte do eleitorado que deu a Flávio Bolsonaro a maioria nas urnas chegou até ele pelos erros acumulados do próprio Lula e de seu governo.

Subestimar esse eleitor foi, e tem sido, o erro de Lula.

Por Alexandra Vieira — especialista em comunicação estratégica e gerenciamento de crise

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