“Queremos vingança, sim!”
Flávio Bolsonaro procura fazer uma campanha 'light', mas Lucas Pavanato, que nem é do núcleo duro bolsonarista, lembra que ainda há muita raiva na política
“Queremos vingança, sim! Vingança e justiça!”
Foi assim que o influenciador Lucas Pavanato, eleito deputado federal por São Paulo com mais de 3 milhões de votos, explicou no Papo Antagonista desta segunda, 5, o desejo de submeter o ministro Alexandre de Moraes, do STF, a um impeachment.
Pavanato diz estar empenhado em consolidar o maior e mais influente grupo de jovens conservadores do Brasil. Nikolas Ferreira, que obteve uma votação ainda maior que a sua neste domingo, é o líder desse movimento. Desponta como força independente na direita e às vezes se estranha com o bolsonarismo. Neste momento, no entanto, não existe divisão nesse campo político. Estão todos focados em voltar ao poder.
Bode expiatório
É significativo que Pavanato não tenha hesitado em falar de vingança. Políticos tarimbados evitam usar a palavra, que remete a maneiras, digamos assim, pré-modernas de solucionar conflitos. O jovem deputado eleito não disfarça: por baixo da superfície da campanha eleitoral há um rio de lava, ou raiva contida.
Pavanato sugere que toda essa raiva pode se concentrar no STF, ou até mesmo em um único ministro, Alexandre de Moraes. Seria a solução milenar do bode expiatório.
Alexandre de Moraes é um ótimo bode expiatório. Depois de revelados seus chamegos com Daniel Vorcaro, pouca gente – de esquerda, direita ou centro – acredita sinceramente que ele merece permanecer no Supremo.
A questão é saber se um sacrifício desse tipo vai saciar os desejos de vingança que estão latentes no Brasil.
Saber perder
Quando passou pelo governo, Jair Bolsonaro gastou mais tempo distribuindo patadas do que governando. Sentindo-se ameaçado pelas urnas, procurou desacreditar o sistema eleitoral. Sonhou com um golpe de Estado e procurou atrair as Forças Armadas para essa sandice.
Na definição minimalista do cientista político Adam Przeworski, a democracia é simplesmente o regime em que partidos perdem eleições e deixam o poder. Sob esse prisma, que resume o sistema ao seu mecanismo mais básico – a alternância de poder pacífica – o bolsonarismo não foi democrático.
Talvez tenha aprendido algo. O fato de Flávio Bolsonaro ter feito campanha até agora sem contestar as urnas pode significar muito ou pode não significar nada.
Se vencer de fato as eleições e tiver o pai ao seu lado, como provavelmente acontecerá, qual será a tônica do seu governo?
A raiva está logo abaixo da superfície. Se Lucas Pavanato fala em vingança, é realista pensar que Jair Bolsonaro não cultiva um sentimento igual? Ele nunca foi comedido.
Minoria majoritária
Direita e esquerda carregam a ideia falsa de que vencer as eleições lhes dá algo mais que uma licença para tentar resolver problemas ao longo de quatro anos. Pensam que conquistam o direito de implementar até suas ideias mais radicais.
Os números não justificam essa crença. Quem quer que vença no segundo turno, terá do outro lado um contingente quase idêntico de brasileiros que pensam o exato oposto.
Isso, sem falar nos trinta e tantos milhões de pessoas que sequer têm se sentido motivadas a sair de casa para escolher um candidato nas eleições presidenciais (no primeiro turno, o número foi de 33,6 milhões).
Esse cenário não autoriza nenhum político a falar em “hegemonia”, outra palavra a que Lucas Pavanato recorreu nesses dias “O futuro brasileiro é de hegemonia conservadora”, ele disse ao Estadão.
Quem chega à presidência no Brasil lidera uma minoria majoritária.
O fato primordial
Não só no Brasil, mas em muitos países, o eleitorado tem se mostrado impaciente com quem ocupa o poder – os chamados incumbentes.
Se vencer as eleições, como parece provável, Flávio Bolsonaro pode fazer um bom governo. Tomara que o faça. Talvez em 2030 o eleitor queira estender a permanência de seu grupo no Planalto.
Também pode acontecer que faça um governo ruim, ou apenas razoável, e haja o desejo de trocá-lo.
É preciso que ele deixe claro em definitivo – pois ainda há dúvidas quanto a isso – que nenhuma raiva vai se sobrepor ao fato primordial: democracia é o regime em que partidos perdem eleições e deixam o poder.
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