Flávio herda espólio político do pai, mas ainda busca identidade própria
Senador chega à reta final do primeiro turno não somente como um dos favoritos, mas em possibilidade de liquidar fatura em primeiro turno
Quando Jair Bolsonaro (PL) escolheu Flávio para disputar a Presidência, em dezembro do ano passado, a aposta parecia carregar mais dúvidas do que certezas. O senador era conhecido nacionalmente sobretudo como filho do ex-presidente e tinha uma trajetória eleitoral concentrada no Rio de Janeiro. A decisão contrariava ainda setores da direita que preferiam uma candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, para enfrentar Lula.
Nos bastidores, pessoas próximas ao presidente da República comemoraram. Alguns deles chegaram a cantar vitória antecipadamente.
Agora, às vésperas da abertura das urnas neste primeiro turno, o cenário é outro. Flávio chegou à reta final da campanha não somente com os votos do pai, mas passou a disputar com Lula a liderança das pesquisas.
Entre dezembro do ano passado e março deste ano, Flávio cresceu exponencialmente. Em março, ele chegou a ter 43% contra 46% de Lula em uma simulação de segundo turno, conforme o Datafolha. Na Genial/Quaest, também do início de março, os dois apareciam empatados em 41%. Em fevereiro, Lula tinha 43% e Flávio, 38%.
O salto ocorreu antes mesmo de Flávio apresentar formalmente seu programa de governo e se manteve nesse patamar independentemente das revelações sobre o caso “Dark Horse” e das relações ainda mal explicadas do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Flávio, o interlocutor de Vorcaro no filme “Dark Horse”
Segundo a Polícia Federal (PF), o senador atuava como interlocutor direto do então dono do Banco Master nas negociações para financiar o filme, acompanhando pagamentos, cobrando repasses e tratando do andamento da produção. O acordo previa 134 milhões de reais para o projeto, dos quais 61 milhões de reais chegaram a ser pagos.
As conversas também revelaram a proximidade pessoal entre Flávio e Vorcaro. Os dois mantiveram contatos frequentes, com mensagens, ligações e encontros presenciais. Em setembro de 2025, Flávio cobrou do banqueiro parcelas atrasadas do filme e manifestou preocupação com compromissos assumidos com integrantes da produção. Em novembro, pouco antes da prisão de Vorcaro, voltou a procurá-lo e escreveu que estaria “contigo sempre”.
Nessa reta final, Flávio também foi atingido por outras denúncias e até citado em um caso extraconjugal. Nem isso foi o suficiente para que ele caísse nas pesquisas. De forma curiosa, o único fato que balançou a campanha foi uma fake news associando o candidato a um suposto plano para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Em seu plano de governo, Flávio propõe um “tesouraço”, com redução de despesas e impostos, corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos comissionados e criação de um novo teto de gastos. O programa retoma ainda o mote “Mais Brasil, menos Brasília”, utilizado pelo governo Jair Bolsonaro sob Paulo Guedes.
Na relação com o Judiciário, o candidato propõe limitar poderes do STF, restringir decisões monocráticas e alterar as regras de julgamento de parlamentares. Também defende o fim da reeleição para presidente.
Na segurança, a proposta é de endurecimento penal, com a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, construção de presídios de segurança máxima e redução da maioridade penal para determinados crimes graves.
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