Um paredão parece derreter em torres finas e gelo e chuva desmontam Bryce Canyon um pouco a cada estação
Congelamento, dissolução do calcário e erosão transformam lentamente paredes de rocha em milhares de colunas isoladas
No sul de Utah, Bryce Canyon abriga a maior concentração conhecida de hoodoos do planeta, colunas irregulares esculpidas principalmente nas rochas da Formação Claron. Água, gelo, dissolução química e erosão trabalham juntas: fraturas se ampliam, paredes se transformam em lâminas estreitas e, pouco a pouco, torres isoladas surgem onde antes existia uma borda contínua de planalto.
Como Bryce Canyon começou a ganhar suas formas atuais?
As rochas que formam os hoodoos começaram a acumular-se há dezenas de milhões de anos, quando a região possuía lagos, planícies de inundação e cursos d’água. Sedimentos consolidaram-se em camadas de calcário, dolomito, siltito, argilito e arenito que hoje compõem grande parte da Formação Claron.
Mais tarde, movimentos tectônicos elevaram a região do Planalto do Colorado. Essa altitude colocou as rochas numa situação climática especialmente favorável à alternância entre temperaturas acima e abaixo de zero, enquanto fraturas preexistentes ofereciam caminhos para a entrada de água.
Por que congelar e descongelar consegue desmontar paredões inteiros?
Chuva e neve derretida penetram nas pequenas fraturas. Quando a temperatura cai, a água congela e aumenta de volume, exercendo pressão sobre as paredes da fissura. Repetições sucessivas ampliam essas aberturas e desprendem fragmentos de rocha.
O parque registra mais de 170 noites por ano nas quais condições de congelamento e degelo favorecem esse processo. Com o tempo, uma borda relativamente contínua do planalto passa por estágios sucessivos até restarem colunas isoladas.
- Fraturas permitem a entrada de água;
- Congelamento amplia progressivamente as rachaduras;
- Degelo libera fragmentos quebrados;
- Enxurradas removem parte dos detritos;
- Paredes viram lâminas, janelas e hoodoos.
Este vídeo explica diretamente como os hoodoos são formados.
Por que Bryce Canyon também depende da chuva para criar hoodoos?
O congelamento quebra fisicamente a rocha, mas a chuva também possui papel importante. A água atmosférica é ligeiramente ácida e reage com o carbonato de cálcio presente em muitas camadas, dissolvendo lentamente parte do cimento mineral que mantém os sedimentos consolidados.
Essa dissolução ocorre de maneira desigual porque as diferentes camadas possuem proporções distintas de carbonato e resistência. Algumas recuam rapidamente, enquanto outras permanecem salientes, ajudando a produzir os contornos irregulares que fazem cada coluna parecer diferente da seguinte.
Como uma parede inteira acaba virando uma única torre?
A explicação geológica do National Park Service descreve uma sequência gradual. Primeiro, erosão e intemperismo isolam paredes estreitas chamadas fins. Fraturas perpendiculares podem então atravessá-las e formar aberturas ou “janelas”.
À medida que essas aberturas aumentam, partes superiores eventualmente desabam. O que sobra são pilares separados, os hoodoos. Eles também não são permanentes: continuam perdendo material até que a estrutura fique instável e finalmente colapse.

Por que os hoodoos de Bryce Canyon têm formatos tão diferentes?
As rochas não possuem resistência uniforme. Camadas mais ricas em materiais resistentes podem proteger temporariamente níveis mais frágeis abaixo delas, funcionando como pequenas coberturas. Outras partes se dissolvem ou quebram rapidamente, criando gargalos, saliências e bases estreitas.
A velocidade de erosão da borda do planalto também mostra que a paisagem está ativa. Em alguns pontos, o recuo é estimado entre aproximadamente 30 centímetros e 1,2 metro por século, embora o ritmo varie conforme relevo, rocha e exposição.
Os hoodoos continuarão surgindo no futuro?
Sim, desde que a combinação entre rocha, água e clima continue favorecendo os processos atuais. Novos hoodoos podem surgir enquanto estruturas mais antigas desaparecem, fazendo com que a paisagem seja continuamente renovada em escalas muito superiores a uma vida humana.
Mudanças climáticas podem, porém, modificar esse equilíbrio. Se ciclos de congelamento e degelo se tornarem menos frequentes, chuva e dissolução química poderão ganhar importância relativa, alterando o formato e a velocidade com que futuras estruturas serão produzidas.
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