Messias, o dinheiro estrangeiro não começou com Trump
Governos estrangeiros de esquerda e direita há anos financiam causas e promovem ideologias no Brasil
O advogado-geral da União, Jorge Messias, ficou indignado nesta quinta-feira, 1º, com a notícia de que o governo americano destinou 1 milhão de dólares ao programa “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”. A AGU acionou a Polícia Federal e a PGR para investigar o caso.
A verba integra um montante de 176,9 milhões de dólares do Human Rights and Democracy Fund que o governo Donald Trump decidiu redistribuir. No lugar de projetos identificados como esquerdistas, entram ações alinhadas com a filosofia do governo republicano.
Segundo o Guardian, o investimento no Brasil pretende apoiar organizações da sociedade civil que se oponham ao que o programa define como excessos judiciais (do STF, em particular) e censura.
“Não se pode admitir”
“Divergências entre governos são próprias das relações internacionais. O que não se pode admitir é que interesses políticos estrangeiros pretendam interferir no funcionamento das instituições brasileiras ou influenciar, direta ou indiretamente, as escolhas que pertencem exclusivamente ao povo brasileiro”, afirmou Messias.
E acrescentou: “É igualmente preocupante quando projetos políticos nacionais buscam respaldo no exterior para confrontar instituições da própria República. Nenhuma disputa interna justifica subordinar interesses nacionais a governos, partidos ou movimentos estrangeiros”.
Não vou sugerir que interferência estrangeira em assuntos brasileiros deva ser bem vista, muito menos na proximidade de eleições. Mas quero ressaltar o que há de seletivo na indignação do AGU.
Guerra fria
O fluxo de recursos estrangeiros para promover direitos, causas e ideias no Brasil tem sido uma constante há décadas. A pergunta certa, portanto, é se existe algo de diferente nesse financiamento do governo Trump em relação ao passado. Só isso.
Se quisermos voltar à Guerra Fria, veremos que americanos e soviéticos gastaram dinheiro para promover suas ideias em inúmeros países.
A CIA montou uma rede internacional de influência cultural. Por meio do Congress for Cultural Freedom, financiou revistas, congressos, exposições, livros, intelectuais e organizações, muitas vezes escondendo a origem do dinheiro por trás de fundações e entidades intermediárias.
A União Soviética construiu sua própria máquina de diplomacia cultural. Escritores estrangeiros ideologicamente próximos eram publicados em grandes tiragens, intelectuais faziam viagens custeadas por organismos soviéticos e prêmios, intercâmbios e instituições culturais ajudavam a ampliar a circulação de determinadas ideias. Jorge Amado, por exemplo, fez propaganda do stalinismo e foi beneficiado por essa estrutura.
Essas histórias mostram como seria tolo tratar a utilização de dinheiro estrangeiro para promover ideias como uma novidade.
Dinheiro do governo Biden
Mas nem é preciso voltar tão longe.
Durante o governo Biden, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USaid) destinou mais de 20,6 milhões de dólares a projetos no Brasil no ano fiscal de 2024. A maior parte foi para iniciativas ambientais e de assistência a populações, mas a inclinação à esquerda de boa parte das ongs que costumam receber esses recursos é conhecida.
Há outro problema: seguir o dinheiro nem sempre é simples. Do dinheiro da USaid, 2,4 milhões de dólares tiveram destinatários não especificados.
A conta tampouco captura todo o financiamento indireto. Por exemplo: o International Fund for Public Interest Media, apoiado pela USaid, repassou 299,7 mil dólares ao site de notícias Nexo. Essas verbas não aparece como repasse da agência ao Brasil.
O que realmente interessa
Se a tentativa de promover “causas” é uma constante, o que deveria merecer atenção?
Primeiro: nenhum aporte é neutro. Mesmo quando o financiador não interfere numa linha de texto ou em qualquer outra atividade, distribuir dinheiro significa aumentar a musculatura de alguns atores e não a de outros.
Segundo: transparência é fundamental. Intermediários podem tornar difícil descobrir de onde veio originalmente o dinheiro, quem decidiu distribuí-lo e sob quais critérios.
Se existe algo de positivo no caso Trump, é justamente o fato de haver pouco esforço para esconder o intuito de promoção ideológica. O governo americano chama o projeto pelo nome e diz qual disputa pretende financiar.
Quem receberá 1 milhão de dólares no Brasil? A reportagem do Guardian não responde. Essa é a questão interessante e não a descoberta tardia de que governos estrangeiros de esquerda e direita financiam causas no exterior.
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