Um dente de T. rex virou termômetro 66 milhões de anos depois e revelou corpo perto de 36 °C
Isótopos preservados no esmalte de três dentes permitiram estimar diretamente a temperatura corporal do grande predador do Cretáceo
Três dentes fossilizados da Formação Hell Creek, em Montana, permitiram estimar diretamente a temperatura corporal de Tyrannosaurus rex. A temperatura do T. rex ficou em 36,3 ± 2,5 °C, valor próximo ao de grandes mamíferos modernos e muito superior às condições ambientais estimadas para o local. O resultado reforça evidências de produção interna de calor, mas temperatura corporal, sozinha, não determina todos os detalhes do metabolismo do dinossauro.
Como a temperatura do T. rex ficou preservada dentro de um dente?
O esmalte dentário se forma dentro do organismo e registra condições químicas existentes durante esse processo. Diferentemente do osso, que pode ser continuamente remodelado durante a vida, o esmalte possui grandes estruturas cristalinas e tende a conservar melhor determinados sinais químicos depois da fossilização.
Os pesquisadores analisaram ligações envolvendo formas raras dos isótopos carbono-13 e oxigênio-18. A frequência com que esses isótopos pesados aparecem ligados depende da temperatura na qual o mineral se formou, permitindo utilizar o esmalte como uma espécie de termômetro molecular.
Quantos dentes foram usados para chegar aos 36,3 °C?
A equipe estudou três dentes de T. rex provenientes da Formação Hell Creek. Dois pertenciam ao espécime LACM 150167, conhecido como Thomas, um jovem adulto, enquanto o terceiro era de outro indivíduo. As estimativas individuais ficaram próximas umas das outras.
Os dois dentes de Thomas indicaram 37,3 ± 3,3 °C e 35,9 ± 2,8 °C. O terceiro produziu 34,7 ± 2,5 °C. Considerando os três, a média calculada foi de 36,3 ± 2,5 °C.
- Três dentes de T. rex analisados;
- Dois indivíduos representados;
- Média estimada de 36,3 °C;
- Incerteza de ± 2,5 °C;
- Material proveniente de Montana.
Este vídeo explica diretamente como isótopos agrupados podem funcionar como termômetros em fósseis de dinossauros.
Por que a temperatura do T. rex foi comparada com a de crocodilianos fósseis?
Os pesquisadores analisaram cinco dentes de crocodilianos encontrados na mesma formação geológica. Esses animais produziram uma média aproximada de 30,9 ± 2,6 °C, significativamente inferior à obtida para T. rex.
Essa comparação é importante porque crocodilianos dependem muito mais do ambiente para regular a temperatura. A diferença entre animais preservados em depósitos semelhantes também ajuda a mostrar que os valores do tiranossauro provavelmente não resultaram apenas de alterações químicas ocorridas depois do soterramento.
O resultado prova que o T. rex tinha metabolismo igual ao dos mamíferos?
O estudo publicado na Science Advances mostra que T. rex mantinha temperatura acima do ambiente e dentro da faixa encontrada em grandes endotérmicos modernos. Isso reforça a interpretação de que havia produção metabólica significativa de calor.
Entretanto, os próprios autores alertam que temperatura corporal não é um indicador inequívoco de taxa metabólica. Animais gigantes também conseguem conservar calor devido ao tamanho corporal. Por isso, os dados precisam ser combinados com crescimento ósseo, ecologia, distribuição geográfica e outras evidências fisiológicas.

Como os cientistas verificaram se o esmalte ainda guardava o sinal original?
Fósseis podem sofrer diagênese, processo em que água, minerais e reações químicas modificam sua composição depois do enterramento. Para testar esse risco, a equipe comparou esmalte e dentina, realizou análises por espectroscopia infravermelha e examinou a composição química das amostras.
O esmalte apresentou características mais próximas de tecidos modernos bem preservados do que de materiais fósseis fortemente alterados. Além disso, os valores diferentes entre T. rex e crocodilianos do mesmo ambiente são incompatíveis com uma alteração uniforme capaz de apagar completamente o sinal biológico.
O que a temperatura do T. rex muda na imagem desse predador?
Uma temperatura próxima à dos grandes mamíferos atuais é compatível com um animal capaz de sustentar atividade mesmo quando o ambiente estava mais frio. Modelos utilizados no trabalho indicam que grande parte da América do Norte teria apresentado condições térmicas adequadas à espécie, inclusive regiões de latitude elevada.
O resultado também reduz a imagem antiga de um grande réptil inteiramente dependente do calor externo. Ainda assim, três dentes de dois indivíduos não descrevem toda a variação existente na espécie. Novas amostras poderão testar idade, tamanho corporal e diferenças geográficas.
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