As incertezas sobre a eleição para o Senado
A direita deve sair fortalecida, mas não dá para cravar que terá votos para o impeachment de um ministro do STF
As eleições para o Senado em 2026 serão peculiares.
Entre aqueles que acompanham a política por gosto ou dever de ofício, elas são largamente percebidas como entre as mais importantes da história da instituição.
Haverá renovação de dois terços das cadeiras e diversas projeções convergem para um diagnóstico: a direita tem boas chances de alcançar a maioria absoluta de 41 assentos.
Além disso, um tema galvanizou atenções: o papel central do Senado na abertura de processos de impeachment contra ministros do STF e na confirmação de indicados à Corte.
Se a legislatura que está se encerrando rejeitou a primeira indicação ao Supremo em 132 anos – Jorge Messias, por 42 votos a 34 –, a próxima deve chegar imbuída do propósito de confrontar o STF.
Mas há um fator que pode, se não frustrar completamente as projeções, ao menos fazer com que os resultados finais sejam um pouco (ou um tanto) diferentes: a preocupação com a chamada Casa Alta não é universal entre os eleitores.
Muitos sequer sabem que terão de votar em dois candidatos, faltando poucos dias para ir às urnas.
A direita avança
O ponto de partida da direita já é favorável.
Dos 27 senadores eleitos em 2022 e que, portanto, não disputam suas cadeiras neste domingo, 19 podem ser incluídos nesse campo político.
Com base nas estimativas estaduais da pesquisa Genial/Quaest realizada entre 31 de julho e 3 de agosto, é possível projetar uma composição de 41 senadores de direita, 19 de centro e 21 de esquerda. Em um cenário ainda mais favorável ao primeiro grupo, seriam 43 cadeiras.
Outro modelo, da consultoria Plano Político, baseado em centenas de pesquisas estaduais, projeta forte expansão do PL. Na atualização de 29 de setembro, o partido aparece com 24 das 81 cadeiras na estimativa central de composição da próxima legislatura.
Os números variam porque metodologias, datas e classificações partidárias também variam. Mas os levantamentos apontam na mesma direção: fortalecimento da direita nas urnas.
41 não são 54
É preciso fazer duas ressalvas.
A primeira diz respeito ao STF. Há forte mobilização de candidatos em torno do tema: levantamento da Gazeta do Povo encontrou 98 candidatos favoráveis ao impeachment de ministros da Corte e apenas 18 contrários.
Mas isso não significa que exista correspondência perfeita entre a agenda dos candidatos e a dos eleitores.
A pesquisa da Genial/Quaest já mencionada encontrou apenas 11% que apontavam o apoio ao impeachment de ministros do STF como o atributo mais importante de um candidato ao Senado. O percentual subia para 24% entre bolsonaristas.
A segunda ressalva é aritmética. Maioria absoluta são 41 votos; para condenar e afastar um ministro do STF num processo de impeachment, são necessários 54.
Assim, mesmo uma bancada majoritária de direita ainda precisaria atrair um bom punhado de senadores de outros grupos para chegar aos dois terços.
Existe uma distância significativa entre um Senado mais conservador e um Senado com os votos necessários para condenar um ministro do Supremo.
A incógnita do segundo voto
Há outra razão para evitar cravar projeções.
A mais recente pesquisa Quaest, realizada entre 24 e 27 de setembro, descobriu que, a cinco dias da eleição, 45% dos eleitores não sabiam que teriam de anotar dois votos para senador.
A baixa atenção ao Senado ajuda a explicar o fenômeno. Apenas 6% dos entrevistados pela Quaest colocam a disputa para senador como aquela a que prestam mais atenção; para presidente, são 59%.
Um Datafolha divulgado nesta quarta-feira, 30, reforça a cautela: 59% dos eleitores ainda não haviam definido seus votos para senador; 27% já tinham escolhido os dois nomes e 14%, apenas um.
Em 2018, última eleição em que também foram escolhidos dois senadores por estado, cerca de 63 milhões de votos ficaram na categoria do “voto incompleto”.
A segunda escolha, portanto, acrescenta volatilidade às disputas apertadas que decidirão a composição final da Casa.
O Senado depois das urnas
Não é prudente cravar agora quantas cadeiras cada campo político terá, muito menos afirmar que a nova composição garantirá a abertura e a conclusão de um impeachment no STF.
Pode-se dizer com segurança, porém, que o assunto continuará em evidência.
E uma tendência observada nos últimos anos deve se consolidar: o Senado estará mais atento ao exercício de uma prerrogativa que durante décadas tratou quase como formalidade, aceitar ou rejeitar as indicações presidenciais para alguns dos cargos mais importantes da República.
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