Mais de 8 mil insetos sobreviveram numa caverna funerária e revelaram que o lugar era um celeiro antes de receber mortos
Pragas preservadas entre os sedimentos mostraram que uma caverna indígena de Gran Canaria guardou cereais antes de se tornar espaço funerário
Durante mais de mil anos, milhares de pequenos restos permaneceram preservados entre sedimentos, madeira e materiais orgânicos de uma caverna artificial de Gran Canaria. Agora, a arqueoentomologia mostrou que Cruz de la Esquina teve uma história anterior aos enterramentos: antes de funcionar como espaço funerário entre os séculos VII e IX, a cavidade foi utilizada para armazenar cereais pela população indígena da ilha.
O que os insetos revelaram em Cruz de la Esquina?
Pesquisadores recuperaram 8.173 restos de artrópodes, dos quais 8.082 puderam ser identificados taxonomicamente. O conjunto representa pelo menos 5.792 indivíduos e inclui insetos e aracnídeos pertencentes a sete ordens, 18 famílias e 35 morfoespécies. Cerca de 83% dos restos apareceram sob as tábuas de madeira do piso funerário.
A composição dessa comunidade foi decisiva. Aproximadamente 21% dos insetos identificados pertenciam a grupos relacionados a produtos armazenados, enquanto pragas de armazenamento apareceram em 76% das amostras de sedimento. Essa distribuição seria difícil de explicar apenas por pequenas oferendas alimentares colocadas junto aos mortos.
Quais pragas mostraram que a caverna já havia armazenado cereais?
Um dos indicadores mais importantes foi Sitophilus granarius, o gorgulho-do-trigo. Suas larvas desenvolvem-se dentro dos grãos armazenados, e o inseto depende fortemente de estoques humanos para se disseminar. Foram encontrados 932 fragmentos dessa espécie, representando pelo menos 388 indivíduos.
Também apareceram outros besouros associados a alimentos armazenados, incluindo Oryzaephilus surinamensis e representantes de Tribolium. A diversidade e a quantidade dessas pragas levaram os pesquisadores a interpretar a cavidade como um antigo depósito de cereais, e não simplesmente como uma tumba contendo algum alimento ritual.
- 8.173 restos de artrópodes recuperados;
- 8.082 restos identificados;
- Pelo menos 5.792 indivíduos representados;
- 21% dos insetos ligados ao armazenamento;
- Pragas presentes em 76% das amostras.
Este vídeo apresenta um grande granero indígena de Gran Canaria e mostra como cereais eram armazenados em cavidades.
Como uma caverna usada para alimentos acabou recebendo os mortos?
A mudança de função provavelmente ocorreu quando o antigo espaço de armazenamento deixou de cumprir sua finalidade econômica e passou a integrar as práticas funerárias locais. Tábuas de madeira foram colocadas no interior, formando uma plataforma sobre a qual os corpos podiam ser depositados.
O estudo não indica que celeiro e cemitério funcionassem simultaneamente da mesma maneira. A interpretação mais consistente é uma reutilização: resíduos e insetos relacionados aos cereais permaneceram no sedimento quando o espaço foi reorganizado para receber os mortos.
Quando Cruz de la Esquina se transformou em espaço funerário?
O estudo publicado na Antiquity situa a utilização funerária aproximadamente entre os séculos VII e IX d.C. A caverna pertence a um complexo com cerca de 20 cavidades artificiais na Mesa de Acusa, no município de Artenara, onde existiam espaços domésticos, depósitos e áreas funerárias.
Datações ajudam a reconstruir a sequência. Uma semente de cevada foi datada aproximadamente entre 660 e 770 d.C., enquanto restos humanos e insetos relacionados aos cadáveres pertencem amplamente ao mesmo intervalo histórico. O conjunto mostra que a transição aconteceu dentro de uma longa ocupação indígena da região.

O que os insetos associados aos corpos revelaram sobre os funerais?
A caverna conservou também insetos ligados à decomposição, permitindo investigar o que aconteceu depois da morte. A composição dessas espécies indica que os corpos provavelmente foram colocados na cavidade quando ainda estavam em fases iniciais do processo de decomposição.
Isso contraria a hipótese de uma exposição prolongada dos cadáveres ao ar livre antes do sepultamento nesse sítio específico. Materiais como couro, cordas e fibras vegetais também sobreviveram, oferecendo pistas sobre embrulhos e estruturas funerárias utilizados pela população indígena.
Por que Cruz de la Esquina pode mudar a interpretação de outras cavernas?
A descoberta mostra que a função final de uma caverna não necessariamente corresponde à sua função original. Outros espaços classificados apenas como funerários podem ter passado anteriormente por fases de armazenamento, especialmente quando estruturas mais antigas e simples não possuíam silos claramente escavados.
A arqueoentomologia oferece uma maneira de identificar essas atividades invisíveis. Pequenos fragmentos de besouros podem sobreviver quando os próprios cereais desapareceram, permitindo reconstruir uma sequência inesperada: primeiro comida armazenada para os vivos; depois, o mesmo espaço reorganizado para receber seus mortos.
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