Três cães-selvagens deixaram a matilha e percorreram 4.126 km em uma jornada que quebra recorde terrestre conhecido na África
Coleiras GPS acompanharam três irmãos entre Kafue e o vale do Luangwa e revelaram a maior dispersão registrada para um mamífero africano
Três irmãos de três anos deixaram sua matilha no Parque Nacional de Kafue, na Zâmbia, e iniciaram uma viagem extraordinária em busca de território e oportunidades reprodutivas. Acompanhados por GPS, os cães-selvagens-africanos acumularam 4.126 quilômetros de deslocamento, o maior percurso de dispersão já registrado para um mamífero africano, embora a distância em linha reta tenha sido muito menor.
Por que os cães-selvagens-africanos abandonaram sua matilha?
Os três machos pertenciam à matilha Mayukuyuku, que antes das partidas reunia 18 adultos e jovens do ano. Eles integravam uma geração excepcionalmente grande, com 19 filhotes que sobreviveram até a idade adulta, aumentando a quantidade de indivíduos jovens com poucas possibilidades imediatas de reprodução dentro do grupo natal.
Em Lycaon pictus, normalmente apenas o casal dominante se reproduz. Jovens subordinados podem permanecer ajudando parentes ou abandonar o grupo para procurar parceiros e estabelecer outro território. Em julho de 2025, quatro fêmeas de três anos partiram primeiro; aproximadamente duas semanas depois, os três irmãos machos também saíram.
Como o trio conseguiu acumular uma viagem de 4.126 quilômetros?
As coleiras GPS revelaram uma rota muito diferente de uma viagem em linha reta. Os animais avançaram, retornaram por trajetos já percorridos, contornaram obstáculos e mudaram várias vezes de direção. Em determinado momento, chegaram às proximidades de grandes centros urbanos como Kitwe, Ndola e Kabwe.
Ao encontrar áreas intensamente ocupadas, os machos chegaram a refazer aproximadamente 200 quilômetros de sua própria rota. Também contornaram grandes reservatórios e atravessaram paisagens protegidas e desprotegidas até alcançarem o ecossistema do vale do Luangwa. Em 1º de abril de 2026, estavam estabelecendo uma nova área na Luano Game Management Area.
- Três machos irmãos participaram da jornada;
- A dispersão começou em julho de 2025;
- O trajeto acumulado chegou a 4.126 km;
- O deslocamento máximo em linha reta foi de 419 km;
- O percurso terminou no ecossistema do vale do Luangwa.
Este vídeo mostra cães-selvagens no próprio Parque Nacional de Kafue, onde começou a jornada do trio.
Por que os cães-selvagens-africanos percorrem distâncias tão grandes?
Dispersão não é o mesmo que migração. Uma migração normalmente envolve deslocamentos sazonais repetidos entre regiões. Já esses animais estavam deixando definitivamente sua área natal para encontrar outros indivíduos, obter oportunidades de reprodução e potencialmente estabelecer uma nova matilha.
Estudos anteriores mostram que, fora de áreas protegidas, os cães podem adotar deslocamentos mais rápidos e retilíneos. Essa capacidade provavelmente também está relacionada à evolução em paisagens onde precisam evitar competidores dominantes, principalmente leões e hienas-malhadas, embora ambientes humanos introduzam perigos completamente diferentes.
O que o rastreamento revelou sobre o recorde africano?
O estudo publicado na revista Ecology descreveu 19 grupos de dispersão acompanhados na Zâmbia. O percurso de 4.126 quilômetros dos irmãos Mayukuyuku superou os demais deslocamentos conhecidos relatados pelos autores para mamíferos terrestres africanos.
Esse número precisa ser interpretado corretamente: representa o comprimento acumulado do trajeto registrado pelas coleiras, não a distância direta entre partida e chegada. Para o conjunto analisado, a maior distância reta registrada foi de 419 quilômetros, mostrando como curvas, retornos e desvios podem multiplicar enormemente o caminho percorrido.

Por que uma viagem bem-sucedida não significa que os habitats estejam seguros?
As rotas mostram que ainda existem conexões funcionais entre importantes áreas de conservação. Quatro grupos destacados no estudo percorreram juntos 9.863 quilômetros, atravessando paisagens que ligam diferentes parques e regiões de manejo de fauna.
Ao mesmo tempo, a dispersão expõe os animais a estradas, assentamentos, perda de habitat e principalmente armadilhas de arame destinadas à caça de animais para carne. Algumas fêmeas acompanhadas morreram provavelmente em armadilhas depois de percorrer enormes distâncias, demonstrando que conseguir atravessar uma paisagem não garante reprodução ou sobrevivência.
O que a viagem dos cães-selvagens-africanos revela para a conservação?
O rastreamento indica que populações geograficamente distantes ainda podem manter algum grau de conexão por meio de indivíduos dispersores. Isso é importante porque a chegada bem-sucedida de animais a outras populações pode permitir reprodução e fluxo genético, reduzindo o isolamento.
Mas movimento não equivale automaticamente a conectividade genética. Os próprios pesquisadores observaram que encontrar parceiros, sobreviver e integrar outra população continua difícil. Preservar corredores entre áreas protegidas, portanto, não significa apenas deixar espaço para caminhar: significa reduzir riscos nas extensas paisagens que esses animais precisam atravessar.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)