Um filhote carregava 894 pedaços de plástico no estômago e recordes de ingestão foram quebrados por quatro anos seguidos
Monitoramento de longo prazo mostra aumento abrupto das maiores cargas de plástico encontradas em filhotes de pardela na remota Lord Howe Island
Em uma ilha remota da Austrália, pesquisadores acompanham há 15 anos o plástico ingerido por filhotes de Ardenna carneipes. O cenário piorou abruptamente nos últimos anos: a poluição por plástico atingiu níveis sem precedentes, com um filhote de pardela apresentando 894 itens em 2025 e outro alcançando 67,4 gramas de plástico em 2026.
Como a poluição por plástico chegou aos filhotes de Lord Howe Island?
Lord Howe Island fica no mar da Tasmânia, centenas de quilômetros a leste da Austrália continental. Mesmo nesse ambiente remoto, as pardelas encontram resíduos flutuantes durante suas viagens de alimentação. Os adultos podem confundir fragmentos de plástico com presas e depois regurgitá-los para os filhotes no ninho.
Os jovens permanecem dependentes dos pais durante aproximadamente 80 dias antes de voar para o oceano. Nesse período, não escolhem o próprio alimento. Assim, os resíduos encontrados em seus estômagos refletem o material trazido pelos adultos durante repetidas viagens de forrageamento.
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Como a poluição por plástico bateu recordes quatro anos seguidos?
Durante a primeira década do acompanhamento, a quantidade variou bastante. Um filhote examinado em 2011 carregava 276 itens, pesando 64,1 gramas, marca que permaneceu excepcional por mais de uma década. Em 2023, porém, um animal apresentou 403 peças, iniciando uma sequência de novos extremos.
Foram 407 itens em 2024 e, em 2025, a contagem chegou a impressionantes 894 peças, com 64,21 gramas. Em 2026, outro filhote tinha menos fragmentos, 644, mas estabeleceu o maior valor em massa da série: 67,4 gramas. Portanto, diferentes medidas de contaminação atingiram novos extremos nesse período.
- 2011: 276 itens e 64,1 g;
- 2023: 403 itens e 52,53 g;
- 2024: 407 itens e 26,3 g;
- 2025: 894 itens e 64,21 g;
- 2026: 644 itens e 67,4 g.
Este vídeo do Natural History Museum acompanha diretamente a pesquisa sobre plástico nas pardelas de Lord Howe Island.
O que 894 pedaços representam para uma ave tão pequena?
Os 894 itens foram encontrados em um único filhote em 2025. A massa de plástico, superior a 64 gramas, representava mais de 15% do peso corporal esperado para uma ave desse porte. Os pesquisadores estimaram que, naquele ano, cada alimentação poderia equivaler em média a dezenas de fragmentos, caso a ingestão estivesse distribuída regularmente.
A quantidade de peças, entretanto, não determina sozinha a gravidade. Massa, tamanho, formato e composição dos resíduos também importam. Tampas, fragmentos rígidos, pellets industriais e outros objetos podem ocupar espaço destinado ao alimento e entrar em contato repetidamente com os tecidos digestivos.
O que o estudo de 15 anos revelou sobre essa piora?
O estudo publicado na Earth’s Future analisou a série de longo prazo e mostrou que a poluição por plástico não aumentou de maneira uniforme. Houve anos relativamente baixos, seguidos por uma elevação abrupta especialmente a partir de 2023.
Essa diferença é importante porque um levantamento curto poderia produzir uma impressão enganosa sobre a tendência. O acompanhamento prolongado mostrou que a frequência de aves atingidas pode variar menos do que a quantidade carregada pelos indivíduos mais contaminados, cuja exposição cresceu drasticamente nos anos recentes.

O plástico apenas ocupa espaço ou também provoca danos aos filhotes?
Pesquisas anteriores com a mesma espécie identificaram lesões associadas à ingestão crônica. Fragmentos podem irritar repetidamente o proventrículo, a primeira câmara do estômago, produzindo inflamação e formação excessiva de tecido cicatricial. Essa condição foi denominada plasticose.
Outros trabalhos em Lord Howe Island também relacionaram maiores cargas de plástico a alterações fisiológicas e menor probabilidade de os jovens sobreviverem e retornarem à colônia como adultos. Isso não significa que cada fragmento cause o mesmo efeito, mas confirma que a exposição pode ultrapassar o simples preenchimento físico do estômago.
Por que a poluição por plástico em uma ilha remota preocupa os pesquisadores?
Lord Howe Island oferece uma oportunidade rara de acompanhar continuamente uma mesma população. A presença de enormes cargas de resíduos ali demonstra que isolamento geográfico não protege aves marinhas daquilo que circula pelas correntes oceânicas e pelas áreas onde elas procuram alimento.
Os pesquisadores também alertam para um problema de referência: aquilo que parecia extraordinário em 2011 passou a ser superado repetidamente. Sem séries longas, mudanças rápidas podem ficar escondidas, especialmente quando a maioria dos estudos ambientais acompanha populações por apenas poucos anos.
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