O povo de Papua-Nova Guiné que usa enormes máscaras de barro e transformou uma antiga tradição das montanhas em um dos símbolos culturais mais marcantes da Oceania
As máscaras holosa das Terras Altas Orientais combinam argila, performance, memória oral e identidade cultural
As figuras de pele esbranquiçada, dedos alongados de bambu e enormes rostos de argila costumam circular na internet acompanhadas de descrições imprecisas sobre uma suposta “tribo africana”. Na realidade, são os Asaro Mudmen, associados ao vale do Asaro, nas Terras Altas Orientais de Papua-Nova Guiné, na Oceania. Suas máscaras, chamadas holosa, fazem parte de uma tradição performática que hoje se tornou um importante símbolo cultural regional.
Quem são os Asaro Mudmen e onde eles vivem?
As comunidades Asaro vivem nas proximidades de Goroka, capital da Província das Terras Altas Orientais. O Australian Museum descreve a região como formada por várias comunidades e grupos de clãs distribuídos pelo início do vale do Asaro, aos pés do monte Daulo.
Por isso, classificá-los simplesmente como uma “tribo africana” reúne dois erros: Papua-Nova Guiné não fica na África e a realidade social local é mais complexa do que uma única tribo homogênea. Os famosos homens mascarados representam uma tradição específica dentro desse conjunto de comunidades.
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Como são feitas as famosas máscaras de barro?
Os artesãos moldam argila até formar uma grande estrutura semelhante a um capacete, acrescentando olhos, nariz, boca, orelhas e outros detalhes. Depois, a peça é parcialmente seca. Algumas máscaras recebem elementos adicionais, enquanto os participantes também cobrem o corpo com argila clara e utilizam extensões de bambu nos dedos.
As peças podem ser pesadas e suas expressões são deliberadamente impressionantes. Durante as apresentações, os homens caminham lentamente e exploram o silêncio e os movimentos corporais para criar uma aparência sobrenatural. A performance é tão importante quanto o objeto usado sobre a cabeça.
- Máscaras moldadas com argila;
- Corpo coberto com material claro;
- Dedos alongados com bambu;
- Movimentos lentos durante a apresentação;
- Aparência deliberadamente assustadora.
Este vídeo do Australian Museum mostra artesãos Asaro explicando diretamente a fabricação e o significado das máscaras.
Como os Asaro Mudmen explicam a origem dessa tradição?
Uma narrativa conhecida conta que guerreiros derrotados teriam se escondido no rio Asaro e retornado cobertos de lama. Ao vê-los no crepúsculo, seus adversários teriam acreditado estar diante de espíritos ou fantasmas e fugido. Essa história continua associada à imagem pública das máscaras.
Entretanto, pesquisadores e museus tratam essa narrativa com cautela. Documentação antropológica indica que práticas anteriores de disfarce existiram, mas a forma atual, com grandes máscaras escultóricas de argila e corpos pintados, ganhou destaque durante apresentações culturais no fim da década de 1950.
As máscaras atuais são exatamente iguais às usadas antigamente?
Não. A documentação do Australian Museum mostra que as máscaras são parte de um patrimônio cultural vivo, transmitido, apresentado e reinterpretado pelas próprias comunidades. Em 2016, artesãos de Komunive participaram de oficinas e performances no museu australiano.
Registros históricos sugerem que versões anteriores eram construídas com materiais vegetais e uma cobertura mais leve de barro. As grandes peças escultóricas de argila hoje reconhecidas internacionalmente representam uma etapa posterior dessa tradição, que continuou se transformando com festivais, turismo e apresentações culturais.

O que significa a aparência assustadora das máscaras?
A estética explora rostos exagerados, olhos marcantes, bocas incomuns e formas que lembram seres não humanos. O nome holosa é associado a “fantasmas”, reforçando a interpretação de que a aparência produz uma presença sobrenatural durante a apresentação.
Hoje, entretanto, as máscaras não devem ser reduzidas a uma suposta função guerreira ancestral. Elas também representam identidade comunitária, habilidade artesanal, memória oral e apresentação cultural. Tornaram-se ainda um dos símbolos visuais mais conhecidos de Papua-Nova Guiné.
Por que os Asaro Mudmen se tornaram conhecidos no mundo inteiro?
As apresentações ganharam grande visibilidade em festivais culturais e posteriormente no turismo internacional. Fotografias das máscaras circularam amplamente porque sua aparência é imediatamente reconhecível, contribuindo para transformar os homens do barro em um símbolo regional e nacional.
Essa popularidade também exige cuidado na descrição. Tratá-los apenas como uma “tribo assustadora” apaga a história contemporânea, as mudanças na tradição e a participação das próprias comunidades em sua preservação. As máscaras são objetos culturais vivos, e não relíquias congeladas de um passado remoto.
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