Vaticano confirma culpa de religioso argentino por abuso sexual
Tribunais eclesiásticos concluíram que o padre Carlos Miguel Buela, morto em 2023, cometeu crimes sexuais com violência contra várias pessoas
O Vaticano informou na terça-feira, 29, que o sacerdote argentino Carlos Miguel Buela, fundador do Instituto do Verbo Encarnado (IVE) e das Servas do Senhor e da Virgem de Matará (SSVM), foi considerado culpado de abuso sexual.
A conclusão vem de dois tribunais criados pela autoridade eclesiástica, que tiveram “certeza moral” de sua responsabilidade. Buela morreu em 23 de abril de 2023, e as duas congregações que ele criou em San Rafael, na província de Mendoza, em 1984, seguem em atividade.
O que decidiram os tribunais
Segundo comunicado da Santa Sé, o Tribunal Penal Especial de Primeira Instância e o Tribunal de Apelações concluíram pela responsabilidade do religioso “pela prática de um crime contra o Sexto Mandamento, perpetrado com violência contra várias pessoas, de acordo com o cânon 1395 § 2”.
O anúncio foi feito pela Irmã Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, órgão do Vaticano que supervisiona religiosos em todo o mundo. Também participaram o bispo José Antonio Satué Huerto, de Teruel e Albarracín (Espanha), e a Irmã Clara Echarte.
Satué e Echarte são os delegados pontifícios que supervisionam, respectivamente, o ramo masculino e o feminino. Ambos foram nomeados pelo Papa Francisco pouco antes de sua morte, em janeiro de 2025.
Os delegados reuniram em Roma, em 14 de setembro, as superioras do IVE e das SSVM para comunicar o resultado do julgamento.
Histórico do caso
Buela vivia recluso em um mosteiro em Gênova, na Itália, desde que foi suspenso, em 2010. A punição veio após denúncias de quase vinte seminaristas, por fatos que remontam à década de 2000.
Em 2001, a Cúria argentina havia promovido o fechamento do IVE e da SSVM. O Vaticano, no papado de João Paulo II, aprovou então a mudança da sede para a diocese de Velletri-Segni, perto de Roma.
As vítimas eram adultos vulneráveis, e não menores de idade. Por isso, o caso, que estava com a então Congregação para a Doutrina da Fé, foi transferido para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada.
O cardeal espanhol Santos Abril y Castellò foi comissário pontifício do IVE após problemas internos de gestão e acusações de abuso de poder e conduta sexual imprópria contra o fundador. Ele encerrou o mandato em 2025, quando os dois delegados assumiram a tarefa. Nos últimos 18 meses, eles acompanharam formação, disciplina, apostolado e governança das duas entidades.
Futuro das congregações
O comunicado afirma que a divulgação busca “contribuir para a restauração da verdade como um ato de justiça para com aqueles que foram prejudicados” pelo religioso.
O texto prevê também um reexame do carisma e uma revisão da espiritualidade, da formação e do apostolado, com distinção entre “o dom do Espírito concedido para a edificação da Igreja e as limitações ou ações pessoais do fundador”.
Uma fonte do Vaticano, que pediu anonimato ao jornal La Nación, disse que o objetivo é evitar o fechamento das congregações: “Para evitar o fechamento do IVE ou da SSVM, está sendo feita uma tentativa de diferenciar o fundador, que era um canalha, do trabalho que ele estabeleceu em todo o mundo”.
Segundo seu site, o IVE está presente em 45 países, em cinco continentes, e mantém sete casas de formação. Seus membros atuam em regiões de conflito e em áreas remotas.
O padre Gabriel Romanelli, pároco de Gaza, pertence ao instituto e conta com o apoio de freiras da SSVM. Sacerdotes do IVE também recebiam a visita do Papa Francisco em Vanimo, na Papua Nova Guiné, em setembro de 2024.
A reportagem observa que o site do IVE cita Buela como fundador, mas não menciona os crimes cuja “certeza moral” foi confirmada.
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