O material mais usado do planeta, que construiu o mundo moderno por mais de 2 mil anos e agora ganha versões que se regeneram sozinhas
Uma tecnologia antiga ganha nova função com ajuda da ciência moderna
Casas, hospitais, pontes, barragens, túneis e redes de saneamento dependem de um material que pode ser moldado no canteiro e depois endurece como pedra. O concreto se tornou o material de construção mais usado do planeta e continua evoluindo, inclusive em laboratórios brasileiros que testam resíduos agrícolas, autorreparação e fórmulas com menor impacto.
Por que o concreto continua tão presente nas obras?
O concreto reúne baixo custo, matérias-primas amplamente disponíveis, facilidade de moldagem e alta resistência à compressão. Essa combinação permite produzir desde pequenas peças pré-moldadas até pilares, pontes e grandes fundações.
A Associação Brasileira de Cimento Portland explica que o cimento reage com a água e forma produtos hidratados que endurecem e dão resistência à mistura. No concreto, essa pasta envolve agregados como areia e brita, que ocupam grande parte do volume.
Essa versatilidade ajuda a explicar por que o material aparece em praticamente todas as escalas da infraestrutura moderna. A International Finance Corporation classifica o concreto como a segunda substância mais consumida do planeta, atrás apenas da água.

O que o concreto romano ensina depois de quase 2 mil anos?
Estruturas romanas mostram que a durabilidade do concreto pode depender tanto dos ingredientes quanto da forma de prepará-los. Pesquisadores do MIT identificaram evidências de uma técnica conhecida como mistura a quente, na qual cal viva era incorporada ao material.
O estudo publicado em 2023 pelo MIT mostrou que fragmentos de cal podem reagir quando uma fissura recebe água. Em testes inspirados na técnica antiga, rachaduras foram preenchidas em cerca de duas semanas.
O que pesquisas brasileiras já conseguiram melhorar no concreto?
Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisadores testaram cinza do bagaço da cana-de-açúcar como substituta parcial da areia. O resíduo vem das caldeiras das usinas e pode ganhar uma segunda função dentro do concreto.
Uma dissertação da UFSCar encontrou resultados especialmente interessantes com 30% de substituição. O concreto manteve desempenho estrutural e de durabilidade, além de apresentar aumento de resistência à compressão e maior resistência à entrada de cloretos.
- Resíduo reaproveitado: a cinza deixa de ser apenas um subproduto da produção de açúcar e etanol.
- Menos areia natural: parte do agregado pode ser substituída por material já disponível nas usinas.
- Resistência: algumas formulações superaram a série de referência nos ensaios mecânicos.
- Durabilidade: o teor de 30% foi considerado aplicável a elementos estruturais convencionais sem perda de desempenho.
Quem sonha em entender os segredos da engenharia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Ciência Todo Dia, onde Pedro Loos mostra o impacto do concreto no mundo moderno:
O concreto brasileiro também pode reparar as próprias fissuras?
Pesquisas no Brasil já testam diferentes caminhos para dar ao concreto capacidade de autorreparação. Na Escola Politécnica da USP, uma dissertação de 2022 incorporou microcápsulas com metilmetacrilato ao concreto armado.
Os ensaios da USP indicaram que a adição de 3% de microcápsulas em relação à massa de cimento apresentou os melhores resultados de autorreparação. As quantidades testadas também tiveram efeito positivo sobre a resistência à compressão.
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Outra tese da USP, publicada em 2023, confirmou a viabilidade da biomineralização em argamassas. Bactérias produzem carbonato de cálcio e ajudam a vedar fissuras.
Por que o Brasil tem espaço para avançar ainda mais nessa tecnologia?
O país já possui uma indústria de cimento com intensidade de carbono relativamente baixa para o padrão mundial. Dados divulgados pela indústria brasileira do cimento apontam cerca de 580 kg de CO₂ por tonelada de cimento, abaixo da referência global de 610 kg apresentada pelo setor.
O avanço veio com adições minerais, biomassa, resíduos como combustível e menor proporção de clínquer. Universidades brasileiras também pesquisam concretos com resíduos e mecanismos de reparação.
Depois de milhares de anos, a mesma base de cimento, água e agregados continua servindo de plataforma para concretos mais duráveis, com menos matéria-prima virgem e capacidade de fechar parte das próprias fissuras.
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