Guaxinins ameaçados começaram a transformar lixo em brinquedo e comportamento em Cozumel parece passar de um animal para outro
Duas jovens fêmeas transformaram papel descartado em bolas e forneceram indícios preliminares de aprendizado social
Em uma ilha mexicana, duas jovens fêmeas foram observadas retirando papel do lixo, molhando o material e transformando-o em pequenas bolas para brincar. O comportamento dos guaxinins-pigmeus de Cozumel chamou atenção porque uma irmã observou a outra executar a sequência e depois conseguiu repeti-la, levantando a possibilidade de aprendizado social e até de uma forma inicial de cultura material.
O que os guaxinins-pigmeus faziam com o lixo?
As observações ocorreram entre janeiro e fevereiro de 2026 em um clube de praia na costa sudoeste da ilha de Cozumel, no México. Duas fêmeas juvenis irmãs retiravam materiais como recibos, guardanapos e embalagens de papel de uma lixeira próxima.
Os animais transportavam o papel até uma tigela com água, mergulhavam o material e depois o pressionavam e rolavam contra a areia. Aos poucos, o papel úmido acumulava areia e ficava compactado até formar um objeto aproximadamente esférico, que posteriormente era manipulado durante brincadeiras.
Quantas vezes os guaxinins-pigmeus repetiram esse comportamento?
Durante 64 horas de observação, os pesquisadores documentaram 14 tentativas de produção dessas bolas. Oito terminaram com objetos completos, enquanto seis foram interrompidas ou não produziram uma bola definida, resultando em uma taxa de sucesso observada de 57,1%.
O estudo não foi originalmente planejado para investigar fabricação de brinquedos. As observações surgiram durante uma pesquisa mais ampla sobre os efeitos do turismo sobre a espécie, razão pela qual os próprios autores classificam as evidências como preliminares.
- 64 horas de acompanhamento;
- 14 sequências de fabricação registradas;
- Oito bolas concluídas;
- Duas fêmeas juvenis observadas;
- Papel, água e areia usados na sequência.
Este vídeo apresenta o guaxinim-pigmeu de Cozumel entre as espécies do gênero Procyon.
Por que os pesquisadores suspeitam de aprendizado social?
Uma das jovens foi vista realizando toda a sequência enquanto a irmã observava. Pouco depois, a segunda tentou repetir o processo. Inicialmente, suas tentativas não tiveram sucesso, mas ela posteriormente conseguiu produzir bolas de maneira independente.
O dado mais interessante surgiu quando essa segunda fêmea continuou executando o comportamento mesmo depois que a irmã deixou temporariamente o local. Isso é compatível com transmissão social, mas não permite concluir que houve ensino intencional ou imitação precisa de cada movimento.
O estudo prova que existe cultura entre esses animais?
Não. Os pesquisadores usam deliberadamente a expressão “evidência preliminar”. Para demonstrar uma tradição cultural estável, seria necessário acompanhar mais indivíduos, verificar sua persistência ao longo do tempo e excluir com maior segurança outras explicações, como aprendizagem individual independente.
O estudo publicado na revista Wild descreve o episódio como possível evidência de envolvimento material socialmente mediado. Em outro local turístico comparável, onde jovens tinham acesso a papel e água, os cientistas não observaram a mesma técnica, reforçando a hipótese de transmissão localizada.

Por que essa descoberta importa para os guaxinins-pigmeus?
O guaxinim-pigmeu, Procyon pygmaeus, vive exclusivamente na ilha de Cozumel e é classificado como criticamente ameaçado. Desenvolvimento turístico, fragmentação do habitat, doenças, poluição e interação com alimentos e resíduos produzidos por seres humanos representam pressões relevantes sobre suas populações.
O episódio mostra que resíduos antropogênicos também podem entrar no repertório comportamental dos animais de maneiras inesperadas. Isso não torna o lixo benéfico: materiais descartados e alimentos inadequados continuam podendo causar ferimentos, intoxicações, alterações nutricionais e mudanças prejudiciais de comportamento.
O que os guaxinins-pigmeus podem revelar sobre cultura animal?
Cultura animal não exige linguagem ou instituições humanas. Em estudos de comportamento, o conceito pode abranger práticas adquiridas socialmente e compartilhadas dentro de um grupo. Tradições desse tipo já foram investigadas em primatas, cetáceos, aves e outros animais, mas permanecem pouco documentadas entre procionídeos.
Nos guaxinins-pigmeus, duas irmãs ainda representam uma amostra muito pequena para conclusões amplas. Mesmo assim, a descoberta mostra por que preservar uma espécie ameaçada significa também proteger comportamentos potencialmente únicos que podem desaparecer junto com pequenos grupos ou famílias.
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