Um manuscrito medieval guardava mais que palavras e DNA no pergaminho revela 3.500 anos de um vírus de ovelhas
DNA preservado em pergaminhos e restos arqueológicos reconstrói milênios da evolução de um vírus que afeta rebanhos de ovelhas
Páginas produzidas com pele animal preservaram muito mais do que textos religiosos e documentos históricos. Pesquisadores encontraram DNA do vírus da varíola ovina em pergaminhos medievais e combinaram essas sequências com material genético recuperado de restos arqueológicos muito mais antigos. O conjunto permitiu reconstruir mais de 3.500 anos de história do patógeno, mostrando que ele já circulava entre rebanhos da Eurásia durante a Idade do Bronze.
Como a varíola ovina apareceu em materiais tão antigos?
A equipe analisou centenas de amostras arqueológicas e históricas distribuídas por aproximadamente 14 mil anos. Entre elas estavam dentes e ossos de animais, peles preservadas e páginas de pergaminho produzidas na Europa medieval. Fragmentos de DNA viral foram identificados e comparados com genomas modernos de capripoxvírus.
Os exemplares mais antigos vieram de ovelhas da estepe eurasiática e datam de cerca de 3.700 anos atrás. Essas sequências ficaram próximas da base da árvore evolutiva reconstruída pelos pesquisadores, fornecendo evidência genética direta de que o vírus já infectava animais domésticos muito antes dos registros veterinários modernos.
Por que pergaminhos conseguiram conservar DNA de um vírus?
Pergaminhos eram feitos a partir de peles de animais submetidas a processos de limpeza, raspagem e secagem. Mesmo após séculos, pequenas moléculas de DNA podem permanecer retidas nas fibras do material, permitindo identificar tanto a espécie usada na página quanto microrganismos associados ao animal ou ao processo de fabricação.
O estudo detectou material viral em manuscritos produzidos entre aproximadamente os séculos VIII e XIV, incluindo obras britânicas e documentos da Europa continental. A presença do vírus nem sempre significa que cada pele apresentava lesões visíveis, porque áreas afetadas poderiam ter sido removidas durante a preparação.
- Pergaminhos feitos com peles de animais;
- DNA preservado entre as fibras;
- Manuscritos dos séculos VIII ao XIV;
- Amostras da Grã-Bretanha e Europa continental;
- Genomas virais recuperados sem destruir os livros.
Um vídeo da Universidade de York explica como pergaminhos podem guardar informações biológicas:
O que os genomas revelaram sobre a varíola ovina?
Os pesquisadores reconstruíram 22 genomas antigos do vírus, incluindo 21 ainda não descritos anteriormente no conjunto publicado. A análise mostrou uma linhagem medieval europeia que parece ter desaparecido e que era geneticamente distinta da diversidade predominante atualmente.
Os resultados também sugerem que grandes linhagens de capripoxvírus começaram a se separar milhares de anos atrás, durante períodos marcados pela domesticação e circulação de rebanhos. Essa relação temporal é uma interpretação evolutiva baseada nos modelos filogenéticos, e não uma prova de que um único evento de domesticação tenha criado o vírus.
Qual estudo reuniu os manuscritos e as amostras arqueológicas?
O trabalho foi liderado por pesquisadores da University College Dublin em colaboração com instituições europeias especializadas em arqueogenômica, virologia, história e conservação. O estudo publicado na Science Advances reuniu DNA de materiais que vão da Idade do Bronze ao início da era moderna.
A equipe rastreou ainda sinais de autenticidade típicos de DNA antigo, como fragmentação molecular e padrões específicos de alteração das bases. Esses testes são essenciais porque materiais históricos acumulam contaminação ao longo dos séculos e qualquer reconstrução evolutiva depende de separar sequências antigas genuínas de DNA moderno.

O que havia nos manuscritos analisados?
Entre os objetos positivos estava o York Gospels, manuscrito associado ao período anglo-saxão, além do Corpus Glossary e de uma cópia medieval das Epístolas de São Paulo. O vírus também apareceu em outros pergaminhos da Grã-Bretanha, França, Áustria e região do Alto Reno.
Uma descoberta inesperada foi a presença de DNA viral em páginas identificadas como pele de bovino ou cabra, além das feitas com pele de ovelha. Os autores consideram possibilidades como contaminação durante a fabricação ou, menos provavelmente, infecção entre espécies, mas os dados atuais não permitem decidir definitivamente entre essas explicações.
Por que a varíola ovina interessa à história da pecuária?
A varíola ovina é uma doença viral contagiosa que pode causar febre, lesões cutâneas e perdas importantes na produção animal. Encontrá-la em comunidades pastoris antigas mostra que doenças infecciosas já faziam parte dos riscos enfrentados por sociedades dependentes de carne, leite, lã e comércio de animais há milênios.
O achado também transforma bibliotecas em fontes inesperadas para a história das doenças. Pergaminhos podem funcionar como arquivos biológicos de animais que viveram séculos atrás, permitindo estudar criação de rebanhos, circulação de patógenos e mudanças genéticas sem depender apenas de esqueletos escavados em sítios arqueológicos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)