O que um empresário deveria perguntar aos candidatos sobre IA
Lula e Flávio Bolsonaro falam da tecnologia em seus planos de governo, mas as ênfases são bem diferentes
A inteligência artificial entrou formalmente na campanha presidencial. Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os dois candidatos que aparecem à frente nas pesquisas de intenção de voto, dedicam espaço específico à tecnologia.
No programa de Lula, o tema aparece em “Economia digital”, capítulo organizado em torno do conceito de soberania digital. O plano propõe desenvolver capacidade brasileira para operar, regular e governar tecnologias estratégicas e prevê uma cadeia que vai de data centers e serviços de nuvem a supercomputação, modelos de linguagem, hardware e software nacionais. Também promete acelerar a difusão da IA pelo setor produtivo.
Flávio trata do assunto em “Tecnologia e inovação”, partindo da ideia de que a tecnologia deve cumprir duas funções: modernizar o Estado e elevar a produtividade. O programa propõe uma Estratégia Nacional de Inteligência Artificial para difundir a tecnologia em larga escala entre micro, pequenas e médias empresas e também prevê compras públicas, GovTech, investimento em pesquisa e aproximação entre universidades e empresas.
Por que isso importa
A adoção de IA pelas empresas brasileiras avança rapidamente. O ponto que mais as preocupa não é o acesso à tecnologia, mas a capacidade de aumentar a produtividade por meio dela.
Pesquisa do Sebrae realizada entre março e maio deste ano encontrou 52% dos pequenos negócios utilizando IA nas duas semanas anteriores à entrevista, principalmente em marketing, atendimento ao cliente e gestão de estoques. Sessenta por cento pretendiam adotar ou ampliar o uso nos seis meses seguintes.
Já nas grandes empresas, que faturam entre 40 milhões de reais e mais de 10 bilhões de reais anuais, levantamento da Bain identificou 95% de adoção. Mas a mensuração dos resultados continua sendo um desafio: embora 91% dos executivos entrevistados disseram que a tecnologia atendeu ou superou suas expectativas, apenas 62% conseguiram mensurar o impacto financeiro efetivo. Segundo o estudo, as restrições para avançar já são “muito mais organizacionais do que tecnológicas”.
A integração da IA aos processos de trabalho envolve desafios diferentes, portanto, conforme o tamanho e a maturidade da empresa.
Para uma grande organização, trata-se de integrar bases de dados, estabelecer governança e levar aplicações à escala. Segurança e privacidade dos dados, falta de expertise e informações internas estão entre os principais obstáculos identificados pela Bain.
Para a pequena empresa, a dificuldade frequentemente começa antes: descobrir o que fazer com a tecnologia. Entre os pequenos empresários que não planejavam adotar IA, 38% apontaram falta de conhecimento sobre suas capacidades. Outro levantamento coloca o desconhecimento das soluções e aplicações práticas à frente da falta de profissionais capacitados, das preocupações com segurança e custo financeiro.
Panorama
Os programas de governo dos dois candidatos tratam a IA como instrumento de desenvolvimento econômico:
Infraestrutura: Lula propõe fomentar uma cadeia que vá de data centers a serviços de nuvem, construir infraestrutura computacional soberana e apoiar uma indústria doméstica de hardware e software. Para data centers, prevê salvaguardas socioambientais, conteúdo local e capacidade computacional destinada ao mercado brasileiro. Flávio destaca energia limpa, minerais críticos e capital humano como ativos brasileiros a serem combinados numa estratégia de produção tecnológica e atração de data centers.
IA nas empresas: Lula promete acelerar sua difusão no setor produtivo, com foco em agro, saúde e serviços financeiros, e levar a transformação digital à pequena empresa e à economia popular. Flávio propõe uma Estratégia Nacional de IA voltada explicitamente à disseminação em larga escala entre micro, pequenas e médias empresas, priorizando indústria, agronegócio, saúde e logística.
Tecnologia nacional: Lula prevê apoio à IA desenvolvida por empresas brasileiras, modelos de linguagem em português, plataforma nacional de dados e fortalecimento da produção doméstica de hardware e software. Flávio também afirma que o Brasil deve produzir, e não apenas utilizar, IA, e propõe ampliar a participação brasileira nas patentes relacionadas à tecnologia.
Pesquisa, talentos e inovação: Lula propõe reforçar instituições públicas de pesquisa, formar talentos e articular universidades, centros de pesquisa, polos de inovação e setor produtivo. Flávio prevê investimento em P&D, fortalecimento de parques tecnológicos e incubadoras, apoio a startups e aproximação entre universidades e empresas.
Estado como indutor: Os dois programas atribuem função ao Estado. Lula combina investimento, compras governamentais e articulação entre empresas públicas e privadas, universidades e centros de pesquisa. Flávio menciona compras públicas, GovTech e investimento em pesquisa como instrumentos para induzir inovação.
Regulação: Lula incorpora soberania, governança e transparência algorítmica à estratégia. Flávio enfatiza legislação orientada à “liberdade de criar e inovar”, evitando regras que afastem investimento, ao mesmo tempo que prevê proteção de dados, privacidade, segurança e defesa cibernética.
Lupa
Por trás das coincidências há duas maneiras bem diferentes de enxergar a questão.
O plano de Lula começa pela soberania tecnológica. A preocupação central é ampliar a capacidade brasileira de desenvolver, operar e governar partes estratégicas da cadeia digital. Infraestrutura computacional, dados, modelos, pesquisa e produção nacional aparecem como componentes dessa autonomia; a difusão da IA pelas empresas é parte desse projeto mais amplo.
O programa de Flávio começa pela produtividade. A tecnologia é apresentada como instrumento para fazer a economia “produzir mais e melhor”. A construção de capacidade tecnológica brasileira também aparece, mas a disseminação da IA pelo tecido empresarial ocupa posição mais explícita na formulação.
Dito de outra maneira, Lula se mostra preocupado em ampliar a autonomia e a capacidade tecnológica do Brasil.
Flávio Bolsonaro se pergunta como utilizar tecnologia e inovação para elevar a produtividade.
Um olhar empresarial: adotar IA não basta
Diego Barreto, CEO do iFood e referência nos debates sobre adoção de IA no Brasil, tem argumentado que, à medida que os modelos ficam mais baratos e acessíveis, “o verdadeiro diferencial competitivo deixa de ser a tecnologia em si e passa a ser o contexto que a alimenta”. Ou seja, o valor vem da capacidade de combinar IA com os dados, conhecimento acumulado e processos específicos de cada organização.
Surge daí um problema de política econômica menos visível do que construir um data center: como fazer milhões de empresas reorganizarem seus processos em torno da IA?
Ajudar um restaurante, uma transportadora, uma pequena indústria ou um escritório a descobrir onde a IA efetivamente aumenta produtividade, redesenhar seus fluxos de trabalho, preparar dados, capacitar funcionários e medir resultados é algo muito diferente de financiar infraestrutura ou facilitar a aquisição de softwares.
É uma distinção importante para ler os dois programas. A proposta de Lula dedica maior espaço à construção da infraestrutura e da capacidade tecnológica nacional; a de Flávio explicita mais diretamente a intenção de difundir IA entre micro, pequenas e médias empresas.
O que um executivo deveria perguntar aos candidatos
Numa entrevista hipotética, empresários brasileiros deveriam exigir de Lula e Flávio Bolsonaro mais detalhes sobre como pretendem transformar o uso da IA em produtividade.
Lula deve explicar como a estratégia de soberania digital chegaria ao chão das empresas. Como investimentos em data centers ou as contrapartidas previstas para a infraestrutura tecnológica seriam convertidas em conhecimento, serviços e competências disponíveis ao setor produtivo?
A Flávio, cabe pedir mais detalhes sobre a promessa de disseminar IA “em larga escala” entre MPMEs. Quem executaria essa política e por meio de quais instrumentos? Capacitação, consultoria tecnológica, financiamento, incentivos tributários, Sebrae, Senai, associações empresariais? E qual seria a métrica de sucesso das suas políticas?
Quem atua em Relações Governamentais deve estar atento ao fato de que políticas públicas de IA envolvem mais que big techs, data centers e desenvolvedores de software. Instituições de formação profissional, universidades, agentes financeiros, associações setoriais e cadeias de fornecedores também podem influir na absorção da tecnologia.
Resumo da ópera
Lula e Flávio Bolsonaro falam de IA em seus programas de governo, mas as ênfases são diferentes.
Lula parte da soberania e da construção de capacidade tecnológica nacional; Flávio parte explicitamente da produtividade e da disseminação da tecnologia pelo tecido empresarial.
Dados coletados com empresas mostram que o acesso à IA se ampliou rapidamente e trouxe novas preocupações: como adaptar os processos internos ao uso da nova tecnologia, para que ele se traduza em aumento de produtividade?
É fundamental, portanto, que a discussão sobre IA no Brasil não se resuma a quantos data centers serão construídos e quanto dinheiro será investido em pesquisa.
Deve-se falar dos mecanismos que favorecerão (ou criarão obstáculos) para a incorporação da tecnologia aos processos produtivos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)