Grãos embrulhados em folhas ficaram 2.200 anos dentro de uma tumba chinesa e podem representar um ancestral ritual do zongzi moderno
Pacotes de arroz e milhetos envoltos em folhas de carvalho revelam uma antiga tradição funerária do reino de Chu
Dentro de uma câmara inundada da tumba de Wuwangdun, na província chinesa de Anhui, arqueólogos encontraram pequenos pacotes vegetais preservados por cerca de 2.200 anos. A estrutura lembra fortemente um zongzi antigo, com arroz e milhetos envoltos em folhas e amarrados por fibras vegetais. A grande diferença é que os grãos ainda estavam com casca, indicando que aqueles embrulhos provavelmente foram preparados como oferendas funerárias, não como refeições.
Como o zongzi antigo apareceu dentro da tumba de Wuwangdun?
Os pacotes foram encontrados na Câmara Leste I da tumba atribuída ao rei Kaolie de Chu, morto em 238 a.C., durante o período dos Estados Combatentes. A água acumulada no espaço criou condições que favoreceram a conservação de folhas, sementes e outros materiais orgânicos que normalmente desapareceriam rapidamente.
A datação por carbono-14 do material vegetal colocou os embrulhos em aproximadamente 2.200 anos antes do presente, compatível com o contexto funerário da tumba. Para os pesquisadores, trata-se de uma das evidências arqueológicas mais antigas de uma tradição de envolver cereais em folhas na região associada ao antigo reino de Chu.
O que havia realmente dentro dos pacotes de folhas?
Os cientistas abriram amostras selecionadas e identificaram centenas de sementes. Cerca de 43,6% eram de arroz, Oryza sativa, enquanto aproximadamente 26,1% correspondiam ao milheto Panicum miliaceum e 28,5% ao painço Setaria italica.
As folhas que formavam os embrulhos foram identificadas como Quercus dentata, uma espécie de carvalho ainda utilizada em algumas regiões chinesas para preparar zongzi. As cordas eram feitas com materiais vegetais de gramíneas, reforçando a semelhança estrutural com os pacotes modernos.
- Arroz ainda envolvido pela casca;
- Milheto Panicum miliaceum;
- Painço Setaria italica;
- Folhas de Quercus dentata;
- Cordas produzidas com gramíneas.
Este vídeo da CGTN apresenta a tumba de Wuwangdun e seu contexto arqueológico no antigo reino de Chu.
Por que o zongzi antigo provavelmente não era uma refeição?
O detalhe mais importante está no estado dos cereais. Grande parte das sementes permaneceu inteira e ainda com casca, condição pouco apropriada ao consumo direto. Análises de resíduos também encontraram pólen e fitólitos associados às partes não comestíveis das inflorescências de gramíneas.
Os pesquisadores consideram que esses elementos foram colocados deliberadamente nos embrulhos. Em vez de comida preparada para o morto consumir, seriam oferendas simbólicas nas quais os cereais representavam riqueza agrícola e recursos que poderiam acompanhar o falecido no mundo funerário.
Esses pacotes comprovam a origem do zongzi moderno?
Ainda não. A semelhança entre folhas envolvendo cereais e o zongzi atual é evidente, mas os próprios autores preferem tratá-los como possíveis precursores. Não foi possível determinar, por exemplo, se o arroz e os milhetos encontrados eram variedades glutinosas iguais às usadas frequentemente no prato atual.
O estudo publicado na National Science Review também destaca que estruturas semelhantes já foram identificadas em outro sítio ligado à cultura Chu. Isso sugere uma tradição regional de embrulhar cereais para rituais funerários, em vez de um episódio isolado em Wuwangdun.

O que o zongzi antigo tem em comum com os pacotes preparados hoje?
O princípio estrutural permanece surpreendentemente parecido: cereais são colocados dentro de folhas, o conjunto é fechado e depois preso com fibras ou cordões vegetais. Atualmente, o zongzi costuma utilizar arroz glutinoso e pode receber diversos recheios, enquanto os exemplares arqueológicos continham partes vegetais impróprias ao consumo direto.
Há também continuidade no tipo de material usado. Folhas de Quercus dentata continuam sendo empregadas para embrulhar zongzi em áreas do norte da China, inclusive em regiões que faziam parte ou ficavam próximas das antigas fronteiras do reino de Chu.
| Elemento | Evidência arqueológica |
|---|---|
| Idade | Cerca de 2.200 anos |
| Arroz | 43,6% das sementes |
| Milhetos | Mais da metade do conjunto |
| Função provável | Oferenda funerária |
Por que essa descoberta é importante para a história alimentar chinesa?
A descoberta ajuda a preencher uma longa lacuna entre tradições associadas ao antigo reino de Chu e registros históricos muito posteriores do zongzi. Ela não comprova diretamente uma receita contínua de 2.200 anos, mas demonstra que a técnica básica de embrulhar cereais em folhas já existia naquela época.
Também mostra como alimentos e rituais podem compartilhar a mesma origem material. Uma prática inicialmente ligada a oferendas funerárias pode ter sido transformada ao longo dos séculos em preparação culinária, preservando o formato enquanto mudavam ingredientes, função e significado cultural.
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