Mary del Priore é a nova vítima dos neocensores

16.09.2026

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O Antagonista
Mary del Priore é a nova vítima dos neocensores
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Carlos Graieb
4 minutos de leitura 16.09.2026 17:15 comentários
Análise

Mary del Priore é a nova vítima dos neocensores

Ameaças à historiadora que ousou tocar no tema da mestiçagem mostram que o woke está vivíssimo

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Carlos Graieb
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Mary del Priore é a nova vítima dos neocensores
A historiadora Mary Del Priore. Foto: Divulgação

Mary Del Priore tem uma longa trajetória como historiadora e uma contribuição que ultrapassa os limites da universidade. Autora de dezenas de livros, ela ajudou a levar ao leitor comum temas da história brasileira que muitas vezes permaneciam confinados à produção especializada. Nem por isso ela foi poupada da censura woke ao lançar, com Gian Melo, a coletânea de ensaios acadêmicos História das Mestiçagens no Brasil (Editora Unesp).

O livro trata de um tema delicado. Del Priore e os demais autores procuram devolver centralidade ao conceito de mestiçagem no pensamento sobre o Brasil – o que significa questionar a nova ortodoxia, que transforma a oposição entre brancos e negros, senhores e escravizados, na única chave descritiva aceitável para a história do país.

A historiadora põe em dúvida um dogma ainda mais fundamental. Ela contesta a ideia de que a mestiçagem brasileira só possa ser explicada pelo estupro de mulheres escravizadas por senhores brancos.

Insultos e ameaças

Dadas as teses, seria ingênuo esperar que não fossem duramente atacadas. O que seria tanto aceitável quanto bem-vindo, quando se acredita que o debate é o coração da vida intelectual.

Acontece que Del Priore não foi questionada. Ela recebeu insultos e ameaças nas redes sociais. A situação foi considerada suficientemente séria para que a Editora Unesp reforçasse a segurança durante a sessão de autógrafos do livro na Bienal de São Paulo.

O episódio, portanto, se junta a uma série de outros em que a liberdade acadêmica vem sendo cerceada.

Números

Alguém pode retrucar que os episódios, na verdade, são barulhentos, mas isolados. Não é o que indica uma pesquisa do Instituto Sivis, realizada com 1.092 universitários de diferentes regiões e áreas do conhecimento. Ela constatou que 47,7% haviam evitado discutir algum tema controverso no ambiente acadêmico nos 12 meses anteriores por medo da reação dos pares.

Outro levantamento, conduzido por pesquisadores da USP e da UFBA, chegou a um resultado ainda mais preocupante entre docentes: 61% afirmaram já ter evitado certos temas por receio de sanções morais, políticas ou jurídicas.

Quando metade dos alunos e uma maioria dos professores declara medir palavras ou evitar assuntos, é sinal de que algo grave está acontecendo.

Pluralismo

O sinal mais eloquente de que algo vai mal na Terra papagalis surgiu em maio, quando professores e pesquisadores de diferentes instituições lançaram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento nasceu de uma reunião realizada no Centro Universitário Maria Antonia, da USP, e reafirmou a importância de três pilares: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.

A formulação central do manifesto é cristalina: “o pluralismo exige o desenvolvimento de uma cultura de discordância construtiva”.

A história de Mary Del Priore também sugere que talvez tenham sido exageradas as notícias sobre a morte do woke.

O woke não morreu

A certidão de óbito começou a ser redigida em inglês. No final de 2025, o jornalista britânico Piers Morgan publicou o livro Woke Is Dead: How Common Sense Triumphed in an Age of Total Madness (O Woke Morreu: como o senso comum triunfou em uma era de loucura total). Segundo ele, a cultura do cancelamento, a vigilância da linguagem e outros elementos associados ao progressismo identitário foram derrotados por uma reação social e política.

Mais recentemente, uma representante muito diferente desse debate pareceu admitir que algo realmente havia terminado. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, um dos principais nomes da esquerda americana, repetiu com aprovação a frase de um aliado político: “Woke 1 was crazy.” (“O woke 1 era maluco”.

A expressão foi imediatamente retomada por Bret Stephens, colunista do New York Times, em um artigo no qual relembrou pessoas que tiveram reputações ou carreiras atingidas pela cultura de conformidade ideológica e cancelamento.

A questão é que Alexandria só indicou a intenção de deixar para trás a encarnação número 1 do woke. Intui-se que o desejo de controlar a linguagem e as ideias aceitáveis para falar de raça, gênero e outras questões sociais só busca uma nova roupagem para se reafirmar.

No Brasil, a neocensura de esquerda passou a ser vista pelo que é. Teve início uma reação a ela. Mas, enquanto pesquisadores precisarem calcular o custo pessoal de formular certas perguntas, será precipitado que o woke ficou para trás.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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