O animal marinho que altera rapidamente a textura da própria pele para se confundir com pedras e corais
Músculos especializados levantam e retraem estruturas da pele que modificam o relevo corporal dos polvos em poucos instantes
Alguns polvos conseguem transformar uma superfície lisa em uma pele cheia de saliências em poucos instantes. As papilas presentes na pele são estruturas musculares tridimensionais controladas pelo sistema nervoso, capazes de criar relevos que ajudam o corpo a acompanhar a textura visual de rochas, algas, corais e outros elementos do fundo marinho.
Como as papilas transformam a superfície da pele?
Em espécies como Octopus vulgaris, Octopus bimaculoides e Abdopus aculeatus, pesquisadores identificaram diferentes tipos de papilas capazes de produzir elevações temporárias na pele. Algumas são pequenas e simples, enquanto outras criam projeções maiores e mais complexas em regiões específicas do corpo.
Quando ficam retraídas, essas estruturas deixam a superfície relativamente lisa. Quando são ativadas, levantam partes da pele e quebram o contorno regular do animal, criando uma aparência tridimensional que pode lembrar pequenas pedras, fragmentos de coral ou irregularidades presentes no substrato ao redor.
Como as papilas conseguem subir e desaparecer tão rapidamente?
As papilas funcionam principalmente por meio de um sistema chamado hidroesqueleto muscular. Em vez de possuírem ossos ou cartilagens internas para sustentar cada saliência, elas utilizam músculos e tecidos incompressíveis que mudam de formato quando diferentes grupos musculares se contraem.
Estudos anatômicos identificaram músculos eretores circulares e horizontais responsáveis por levantar e modelar muitas dessas estruturas, além de músculos retratores que puxam novamente a papila em direção à superfície. A combinação permite produzir diferentes graus de relevo sem acrescentar estruturas rígidas ao corpo.
- Músculos circulares ajudam a elevar a papila;
- Músculos horizontais ajudam a definir seu formato;
- Retratores puxam a estrutura novamente para baixo;
- Tecido conjuntivo contribui para a sustentação.
Este vídeo mostra como a pele dos cefalópodes pode assumir relevos tridimensionais inspiradores para pesquisas em materiais adaptativos.
Como as papilas ajudam o polvo a se esconder?
O efeito mais importante é modificar fisicamente a superfície e o contorno do corpo. Um polvo sobre uma rocha irregular pode erguer determinadas projeções e abandonar temporariamente a aparência lisa, diminuindo a diferença visual entre sua pele e os objetos próximos.
Essa transformação faz parte de um conjunto maior de comportamentos de camuflagem, mas a textura possui mecanismo próprio e não deve ser confundida com alterações de pigmentação. Pesquisas mostram que cefalópodes conseguem controlar o grau de expressão das estruturas, produzindo desde pequenas irregularidades até superfícies fortemente rugosas.
Todo polvo consegue produzir as mesmas texturas?
Não. Espécies diferentes apresentam repertórios distintos de papilas, distribuídas em locais diferentes e capazes de assumir formas específicas. Portanto, não existe uma textura universal que todos os polvos consigam reproduzir nem uma papila que possa assumir qualquer formato imaginável.
Uma pesquisa publicada no Journal of Morphology e indexada pela National Library of Medicine comparou estruturas de várias espécies de polvos e sépias e encontrou diferenças claras de tamanho, anatomia e complexidade. A camuflagem depende, portanto, das capacidades próprias de cada espécie.

Quais estruturas formam esse mecanismo especializado?
As papilas estudadas apresentam organização muscular mais sofisticada do que uma simples dobra de pele. Em muitas delas, músculos dispostos em diferentes direções atuam sobre um núcleo de tecido conjuntivo, permitindo que a mesma região passe de plana para elevada e retorne posteriormente ao estado inicial.
Experimentos com cefalópodes demonstram que essas mudanças podem ocorrer muito rapidamente. Embora valores precisos variem conforme espécie e estrutura analisada, trabalhos experimentais registraram expansão ou retração de papilas individuais em escalas inferiores a poucos segundos.
Por que as papilas interessam tanto aos cientistas?
A capacidade de modificar uma superfície flexível sem utilizar peças rígidas desperta interesse em biomecânica e engenharia. Pesquisadores já desenvolveram materiais inspirados nessas estruturas para criar superfícies artificiais capazes de passar de planas para tridimensionais quando submetidas a determinadas forças.
O polvo demonstra, assim, que camuflagem não depende apenas da aparência bidimensional. Alterar fisicamente a geometria da pele permite modificar sombras, relevo e contorno corporal, acrescentando uma camada tridimensional de adaptação que torna esse sistema um dos mais sofisticados encontrados entre os animais marinhos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)