CIA revela alertas sobre Bin Laden bem antes do 11 de setembro
Agência de inteligência dos EUA divulgou 71 documentos inéditos que mostram sinais de ameaça de Al Qaeda captados entre 1998 e 2001
A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) tornou público nesta sexta-feira, 11, um conjunto de 71 relatórios de inteligência produzidos entre fevereiro de 1998 e setembro de 2001, revelando o que o órgão já sabia sobre Osama bin Laden e a rede Al Qaeda anos antes dos atentados de 11 de setembro de 2001.
A divulgação ocorre em meio às homenagens às vítimas pelos 25 anos da tragédia, que matou cerca de 3 mil pessoas em Nova York, Washington e na Pensilvânia. Segundo a CIA, trata-se do maior pacote de documentos já liberado sobre o assunto.
Documentos inéditos e alertas antigos
Do total de arquivos, 69 nunca haviam sido conhecidos pelo público; apenas dois já haviam sido apresentados anteriormente à comissão parlamentar que investigou os ataques. Entre os materiais estão avaliações que integravam o Informe Diário do Presidente (PDB), o documento de inteligência mais restrito enviado ao chefe de Estado americano e a seus principais assessores.
Um dos registros mais antigos, de 13 de fevereiro de 1998, apontava que Bin Laden e outros radicais islâmicos haviam combinado “procurar substâncias químicas, biológicas e nucleares não especificadas em mercados abertos”, contando para isso com recursos financeiros próprios.
Outro relatório, de 10 de setembro daquele mesmo ano, alertava que um grupo ligado ao líder terrorista “poderia lançar um avião carregado de explosivos contra uma cidade dos Estados Unidos” — hipótese que, segundo apuração posterior da comissão do 11 de Setembro, não chegou a ser aprofundada pelo Centro Antiterrorista da própria CIA.
Um informe de dezembro de 1998 já mencionava a possibilidade de sequestro de aeronaves como método de ataque. Já um documento de outubro de 1999 associava Bin Laden a investimentos em laboratórios de produção de entorpecentes no Afeganistão, sob proteção do regime talibã — ligação que a comissão investigadora, anos mais tarde, considerou sem comprovação sólida.
O memorando de agosto e as horas finais
O documento mais conhecido do lote, intitulado “Bin Ladin Determined To Strike in US”, já havia sido revelado em 2004 e tem data de 6 de agosto de 2001. Nele, a CIA informava que dados do FBI indicavam “padrões de atividade suspeita neste país compatíveis com preparativos para sequestros ou outros tipos de ataques, incluindo vigilância recente de prédios federais em Nova York”.
Na ocasião, o FBI mantinha 70 investigações abertas relacionadas a Bin Laden em solo americano.
De acordo com a apuração da comissão do 11 de Setembro, esse memorando foi o trigésimo sexto ponto sobre Bin Laden ou Al Qaeda incluído no resumo presidencial naquele ano — e o primeiro a tratar especificamente da possibilidade de um atentado dentro do território americano.
Ainda assim, parte dos registros do período permanece sob sigilo, já que apenas 18 documentos da gestão de George W. Bush anteriores aos ataques constam da divulgação.
O último arquivo da série, um informe de situação enviado às 4h de 12 de setembro de 2001 — já na madrugada seguinte aos ataques —, trazia dados recentes sobre o paradeiro e os planos do líder da Al Qaeda.
O texto registrava que “evidências crescentes indicam que extremistas sunitas no Afeganistão e no Golfo Pérsico sabiam recentemente que ataques comandados por Bin Laden eram iminentes”, além de citar um suposto atrito entre Bin Laden e o mulá Omar sobre o momento de executar a operação.
Falhas reconhecidas pela própria inteligência
Analistas da CIA citados pelo jornal The New York Times observaram que diferentes fragmentos de inteligência sobre a rede terrorista surgiam e desapareciam dos relatórios sem que a agência conseguisse montar o quadro completo da ameaça.
Um documento de agosto de 1999 chegou a cogitar que as informações recolhidas fossem parte de uma armadilha: “Os diversos alvos mencionados nos relatórios, combinados com uma alta incidência de contatos espontâneos ligados a Bin Laden, sugerem um esforço deliberado para nos enganar”.
Jamie Gorelick, que integrou a comissão de investigação dos atentados e teve acesso aos resumos presidenciais na época, afirmou que os documentos agora tornados públicos “são consistentes com a avaliação da comissão sobre a inteligência prévia ao ataque”. O diretor da CIA, John Ratcliffe, classificou a divulgação como “um ato de transparência excepcional”.
Após os atentados, o governo americano reformulou sua estrutura de segurança nacional, criando o Departamento de Segurança Interna (DHS) e a Diretoria de Inteligência Nacional, além de dar início à invasão do Afeganistão semanas depois.
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