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Brasil e EUA: história de duas inflações (e duas eleições)
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Carlos Graieb
8 minutos de leitura 11.09.2026 17:22 comentários
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Brasil e EUA: história de duas inflações (e duas eleições)

Inflação nos dois países aponta em direções opostas, mas eleitores compram produtos e serviços, não índices

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Carlos Graieb
8 minutos de leitura 11.09.2026 17:22 comentários 0
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Brasil e EUA: história de duas inflações (e duas eleições)
Imagem: IA por José Inácio Pilar
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Brasil e Estados Unidos divulgaram nesta sexta, 11, seus números de inflação de agosto — e eles apontam em direções distintas.

No Brasil, o IPCA, índice oficial de inflação ao consumidor, registrou queda de 0,32% no mês e desacelerou de 4,44% para 4,22% em 12 meses. A queda mensal foi influenciada pela energia elétrica residencial, que recuou 7,63% com o bônus de Itaipu, crédito extraordinário nas contas de luz decorrente de recursos distribuídos pela usina binacional. Sem esse componente, o índice teria ficado positivo.

Nos Estados Unidos, o CPI, principal índice de preços ao consumidor do país, avançou 0,4% em agosto e 3,4% em 12 meses. A inflação americana continua, portanto, acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve.

Na próxima semana, os dois países terão reuniões de política monetária. O Copom decidirá o novo patamar da Selic, hoje em 14% ao ano. O mercado vinha atribuindo cerca de 95% de probabilidade a um corte de 0,25 ponto percentual. Nos Estados Unidos, os apostas indicam 90% de probabilidade de alta de 0,25 ponto pelo Fed depois da divulgação do CPI.

Por que isso importa

Brasil e Estados Unidos entram na reta final de campanhas eleitorais. Aqui, o primeiro turno presidencial será em outubro. Lá, as eleições de meio de mandato serão realizadas em novembro.

Isso coloca duas perguntas sobre a mesa. A proximidade das urnas pode interferir nas decisões dos bancos centrais? E, independentemente disso, como os políticos usarão essas decisões nas campanhas?

O clima político já está especialmente carregado nos Estados Unidos. Donald Trump tem pressionado publicamente por juros menores, enquanto o Fed enfrenta uma inflação que voltou a exigir aperto. Uma alta poucos meses antes das eleições contrariaria diretamente o desejo manifestado pelo presidente.

No Brasil, uma redução da Selic durante a campanha tende inevitavelmente a entrar na disputa política, ainda que o Copom a justifique pela evolução dos dados.

Para executivos e profissionais de relações governamentais, porém, a questão vai além das eleições. Uma alta dos juros americanos pode restringir o espaço de ação brasileiro nos próximos meses, ao fortalecer o dólar, alterar fluxos de capital e pressionar as condições financeiras dos emergentes.

Além disso, o quadro doméstico tem peculiaridades que exigem atenção: de um lado, os preços dos serviços ainda sobem em ritmo elevado; de outro, os alimentos carregam uma alta acumulada que pesar sobre a percepção das famílias mesmo quando a inflação mensal melhora.

Lupa: Brasil — a inflação cai, mas os serviços resistem

O número geral de agosto foi favorável, mas é preciso olhá-lo de perto. A energia elétrica sozinha respondeu por impacto próximo de -0,33 ponto percentual no IPCA, praticamente equivalente à deflação de 0,32% registrada pelo índice. E o efeito do bônus de Itaipu será revertido em setembro.

Ainda assim, quando se retiram do cálculo alguns preços que oscilam muito de um mês para outro, as medidas usadas pelo Banco Central para identificar a tendência mais persistente da inflação também mostram melhora. Os preços de bens industriais, por exemplo, desaceleraram.

O ponto de resistência continua sendo serviços.

Os preços de serviços menos sujeitos a oscilações ocasionais avançaram 0,40% e acumulam aproximadamente 5% em 12 meses. Nos serviços que dependem mais intensamente de trabalhadores — e, portanto, o custo do trabalho tem peso maior —, a inflação chega a 7,18% em 12 meses. O mercado de trabalho aquecido ajuda a explicar essa resistência: emprego, renda e massa salarial continuam sustentando a procura por esses serviços.

Mas há uma segunda dimensão da inflação que interessa particularmente em ano eleitoral: o nível de preços.

Entre janeiro de 2020 e junho de 2026, o IPCA acumulou cerca de 43,3%, enquanto a alimentação no domicílio avançou aproximadamente 67,5%. Mesmo depois da queda recente da inflação dos alimentos, a distância permanece superior a 20 pontos percentuais.

É uma distinção fundamental. Inflação menor significa que os preços sobem mais devagar; não significa que os preços voltaram para trás.

Assim, Lula chega à reta final da campanha com uma estatística favorável — inflação corrente em desaceleração —, mas diante de um problema político mais difícil de eliminar: a memória, incorporada aos preços, da inflação acumulada nos últimos anos.

Lupa: EUA — o mesmo problema, em outra direção

Nos Estados Unidos, o movimento é inverso: em vez de uma inflação que cede, agosto trouxe nova pressão.

O componente que mais preocupa o Fed é o chamado “supercore”, que equivale a serviços, menos energia e habitação. Ele avançou 0,5% no mês e 3% em doze meses. Ao mesmo tempo, energia voltou a pressionar: gasolina subiu 3,9% em agosto e o choque recente do petróleo ainda não foi integralmente incorporado ao índice.

Mas Estados Unidos e Brasil compartilham um problema político que o índice mensal não captura adequadamente.

Também nos EUA, os preços ao consumidor estão mais de 30% acima dos níveis do início de 2019. A inflação caiu muito desde os 9% registrados em 2022. Mas, lá como cá, isso apenas diminuiu a velocidade da alta. Não reverteu o encarecimento acumulado.

O eleitor americano sente isso com clareza. Desde 2012, carne bovina acumula alta próxima de 96%; aluguéis, 75%; alimentação fora de casa, 69%; e reparos de veículos, 81%.

O quadro ficou ainda mais desconfortável porque os salários voltaram a perder a corrida para os preços em agosto (é o quinto mês consecutivo de queda do salário real).

Inflação, juros e eleições

Lula e Trump chegam às respectivas eleições assombrados por juros e inflação.

Lula pode apontar para um IPCA de 4,22% em 12 meses, para a deflação de agosto e, se o cenário esperado se confirmar, para uma nova redução da Selic na próxima semana. Economicamente, tudo isso importa. Mas os dados, politicamente, precisam competir com a experiência cotidiana de famílias que compram alimentos a preços muito superiores aos de alguns anos atrás.

O desafio do presidente brasileiro é convencer o eleitor a olhar para a taxa de inflação quando ele continua olhando para o preço das coisas.

Trump enfrenta situação mais desconfortável no curtíssimo prazo. A inflação voltou a 3,4%, o petróleo pressiona energia e o Fed pode elevar juros justamente quando o presidente gostaria de vê-los cair. O aumento dos juros também pode reforçar pressões sobre financiamento imobiliário, automóveis e outros itens comprados a crédito.

Há ainda um componente político adicional: parte da inflação americana está associada a decisões do próprio governo. O The New York Times observa que a inflação havia chegado a 2,3% em abril de 2025, antes de novas tarifas voltarem a pressionar bens e de a guerra do Irã provocar a escalada da energia.

Trump terá de explicar por que a inflação voltou a subir e os juros podem aumentar, enquanto o custo de vida acumulado permanece elevado. Lula poderá argumentar que a inflação está diminuindo, embora o custo de vida continue alto. Talvez possa também dizer que Trump atrapalha a economia brasileira: se o Fed sinalizar uma tendência de aumento de juros na próxima semana, dólares poderão deixar países como o Brasil em direção aos Estados Unidos, pressionando o câmbio e reduzir o espaço para futuros cortes pelo Copom.

Mas o problema de Lula permanece: o eleitor não compra IPCA; compra comida, combustível, moradia e serviços.

Resumo da ópera

Brasil e Estados Unidos vivem momentos diferentes do ciclo inflacionário. O Brasil desinfla e se prepara para reduzir juros; os Estados Unidos voltaram a enfrentar pressão inflacionária e podem elevar os seus.

Mas as duas histórias convergem em um ponto que deve ganhar peso à medida que as respectivas eleições se aproximam: taxa de inflação e nível de preços não são a mesma coisa.

Para os bancos centrais, a questão é a velocidade com que os preços avançam daqui para a frente e o risco de os choques se propagarem. Para os eleitores, importa também quanto comida, aluguel, combustível e serviços subiram ao longo dos anos.

Empresas e profissionais de RelGov devem acompanhar as duas dimensões. A primeira determina juros, câmbio, crédito e atividade. A segunda, ajudará a determinar o humor das urnas.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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