O deserto onde algumas plantas conseguem permanecer aparentemente mortas durante anos e voltar a crescer depois das primeiras chuvas
A espécie suporta dessecação extrema e recupera sua atividade quando a água volta ao ambiente árido
No deserto de Chihuahua, entre o México e o sudoeste dos Estados Unidos, uma pequena licófita consegue suportar uma perda extrema de água e permanecer enrolada durante longos períodos. Conhecida como planta da ressurreição, Selaginella lepidophylla não está realmente morta quando parece seca: seus tecidos entram em um estado de atividade extremamente reduzida e podem recuperar funções fisiológicas depois da reidratação.
Como a planta da ressurreição consegue sobreviver no deserto?
A Selaginella lepidophylla é uma planta vascular poiquilohídrica, o que significa que seu conteúdo de água acompanha fortemente as condições ambientais. Diferentemente de muitas plantas que tentam manter os tecidos hidratados durante uma seca, ela tolera que suas partes vegetativas percam quase toda a água disponível sem sofrer danos irreversíveis.
A espécie ocorre naturalmente em áreas áridas, especialmente no deserto de Chihuahua. Durante a desidratação, seus ramos se curvam e formam uma estrutura compacta e aparentemente seca. Com o retorno da umidade, eles se abrem novamente e a planta recupera progressivamente processos como trocas gasosas e fotossíntese.
O que acontece dentro dos tecidos quando praticamente toda a água desaparece?
Sobreviver à dessecação exige proteger membranas, proteínas e outras estruturas celulares que normalmente seriam danificadas pela perda intensa de água. Estudos encontraram em S. lepidophylla concentrações elevadas de determinados açúcares, álcoois de açúcar, antioxidantes e outros metabólitos associados à estabilização celular e ao controle dos danos provocados pela desidratação.
O mecanismo é complexo e não depende de uma única substância. A antiga ideia de que a resistência seria explicada principalmente pela trealose, por exemplo, foi enfraquecida por comparações metabólicas. Pesquisas apontam para uma combinação de mecanismos estruturais, bioquímicos e moleculares que mantém componentes celulares preparados para a reidratação.
- Os ramos se enrolam conforme perdem água.
- A atividade metabólica cai drasticamente.
- Compostos celulares ajudam a limitar danos da dessecação.
- A reidratação permite a retomada gradual da atividade.
Este vídeo em time-lapse mostra uma Selaginella lepidophylla seca se abrindo depois de receber água.
A planta da ressurreição pode realmente ficar seca durante anos?
Há evidências de que plantas de ressurreição podem permanecer viáveis sem água durante períodos que vão de meses a anos, e trabalhos sobre S. lepidophylla relatam inclusive espécimes mantidos secos por vários anos antes da reidratação. Uma revisão científica descreve essas plantas como capazes de sobreviver em anidrobiose por períodos muito prolongados.
Isso não significa que qualquer exemplar seco continuará viável indefinidamente. Idade, velocidade de desidratação, temperatura, armazenamento e integridade dos tecidos interferem na capacidade de recuperação. Em um estudo experimental, até a velocidade com que a planta secava influenciou sua recuperação fotossintética posterior.
Ela realmente morre e volta à vida quando recebe água?
Não. A expressão “ressurreição” descreve sua aparência, e não uma morte seguida de retorno à vida. Durante a dessecação extrema, a atividade fisiológica fica profundamente reduzida, enquanto estruturas e moléculas necessárias à recuperação permanecem preservadas. Por isso, o aspecto marrom e encolhido pode dar uma impressão enganosa.
Quando a água reaparece, os tecidos absorvem umidade, os ramos começam a se desenrolar e diferentes processos metabólicos são retomados. A Universidade de Connecticut descreve Selaginella lepidophylla como uma espécie poiquilohídrica capaz de permanecer desidratada por longos períodos.

Quais características mostram como essa estratégia é diferente?
A tolerância à dessecação vegetativa é incomum entre plantas vasculares. Muitas espécies do deserto evitam a seca armazenando água, aprofundando raízes ou completando rapidamente seu ciclo de vida. S. lepidophylla segue outra estratégia: tolera que seus próprios tecidos atinjam níveis extremamente baixos de hidratação.
Essa capacidade também explica por que ela interessa aos pesquisadores. Compreender como células permanecem viáveis depois de perder tanta água pode ajudar a identificar mecanismos relacionados à resistência à seca em vegetais, embora isso não signifique que as mesmas características possam ser simplesmente transferidas para culturas agrícolas.
Por que a planta da ressurreição desperta tanto interesse científico?
Além de ser uma adaptação impressionante às condições do deserto, a espécie oferece um modelo para estudar os limites da sobrevivência vegetal à falta de água. Pesquisas analisam genes, proteínas, metabólitos e estruturas celulares que permanecem preservados durante o estado seco e entram novamente em funcionamento após a reidratação.
Seu aspecto pode sugerir uma planta morta esperando a chuva, mas a realidade é biologicamente mais interessante. Selaginella lepidophylla reduz drasticamente suas atividades, protege estruturas essenciais e permanece preparada para aproveitar rapidamente a umidade quando ela retorna ao ambiente árido.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)