A cidade onde milhares de pessoas viveram em casas escavadas na encosta e transformaram a rocha em moradia
Casas, igrejas e cisternas escavadas na rocha transformaram uma encosta italiana em uma cidade habitada durante gerações
No sul da Itália, bairros inteiros parecem nascer diretamente das paredes de um profundo desfiladeiro calcário. Em Matera, cavernas naturais foram ampliadas e transformadas em casas, igrejas, depósitos e cisternas durante séculos, formando um dos conjuntos trogloditas mais completos do Mediterrâneo e uma paisagem urbana moldada literalmente dentro da rocha.
Como Matera transformou cavernas em casas?
A ocupação da região remonta à Pré-História, mas as habitações ficaram progressivamente mais complexas. Cavidades naturais eram aprofundadas, enquanto os blocos retirados durante a escavação serviam para construir fachadas, paredes e novos cômodos diante das próprias grutas. Dessa combinação surgiram os bairros conhecidos como Sasso Caveoso e Sasso Barisano.
A organização tornou-se tão integrada ao relevo que o teto de uma casa podia funcionar como rua ou passagem para outra construção localizada acima. Igrejas, oficinas, estábulos e sistemas de armazenamento de água também foram inseridos nessa rede, transformando a encosta em uma cidade sobreposta em diferentes níveis.
Por que essas casas mantêm temperaturas mais estáveis?
Escavar ambientes dentro da rocha oferece uma vantagem térmica importante. A grande massa de material ao redor das habitações demora a aquecer e esfriar, reduzindo as oscilações rápidas de temperatura encontradas no exterior. Isso ajudava principalmente durante os verões quentes e também diminuía as mudanças térmicas durante as estações mais frias.
Portanto, as moradias não foram criadas simplesmente para fugir de um “frio extremo”. Estudos de desempenho ambiental classificam os Sassi como exemplo de arquitetura bioclimática mediterrânea, embora cavernas profundas sem ventilação adequada também possam apresentar problemas de umidade e conforto.
- A rocha oferece elevada massa térmica.
- Ambientes escavados sofrem menos variações diárias de temperatura.
- Cisternas armazenavam a água das chuvas.
- Casas construídas e cavernas formavam estruturas integradas.
- O relevo era aproveitado em diferentes níveis.
Este vídeo da UNESCO apresenta os Sassi e mostra como as habitações foram incorporadas à paisagem rochosa.
Quantas pessoas chegaram a viver nos Sassi de Matera?
A área histórica preserva mais de mil habitações, além de oficinas, igrejas e outras estruturas. Ao longo do tempo, esses espaços abrigaram uma população numerosa, especialmente antes das grandes intervenções urbanas do século XX.
As condições, porém, mudaram profundamente conforme o número de moradores aumentou. Famílias numerosas passaram a dividir espaços reduzidos, algumas vezes junto com animais, enquanto problemas de saneamento tornaram-se graves. Esse cenário levou o governo italiano a promover a transferência dos habitantes dos Sassi durante a década de 1950.
Por que os moradores foram retirados das casas escavadas?
Em 1952, uma lei de reabilitação determinou a retirada progressiva de moradores das antigas casas-gruta. O problema não era simplesmente a arquitetura escavada, mas a combinação de pobreza, superlotação, infraestrutura inadequada e condições sanitárias incompatíveis com os padrões urbanos modernos.
A desocupação interrompeu durante décadas parte da utilização tradicional dos Sassi. A UNESCO registra que a população foi transferida nos anos 1950 para permitir melhorias sanitárias e recuperação dos bairros, que passaram por um período de abandono antes de começarem a ser reocupados e restaurados a partir dos anos 1980.

O que os números revelam sobre Matera?
O conjunto protegido inclui os Sassi e o Parque das Igrejas Rupestres, ocupando 1.016 hectares. Sua importância está na continuidade da ocupação humana e na integração entre cavernas naturais, construções escavadas e estruturas feitas com os próprios blocos retirados da rocha.
Em 1993, o local entrou na Lista do Patrimônio Mundial. A classificação reconheceu não apenas a antiguidade das cavernas, mas a evolução de uma paisagem urbana capaz de registrar sucessivas fases da história humana.
Como as antigas cavernas voltaram a ser habitadas?
A partir dos anos 1980, projetos de recuperação devolveram funções aos bairros históricos. Muitas cavernas e construções foram restauradas para moradia, hospedagem, comércio e atividades culturais, permitindo que a área recuperasse parte da vida urbana sem apagar sua estrutura histórica.
Hoje, a UNESCO reconhece os Sassi de Matera como um exemplo excepcional de assentamento troglodita adaptado ao terreno. A trajetória mostra como cavernas que serviram de residência durante gerações passaram de solução habitacional tradicional a problema sanitário e, finalmente, a patrimônio protegido.
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