Crusoé: Relatório da Anthropic revela os usos mais bizarros e perigosos da IA
A dona do DeepSeek encaminhou pedidos de seus próprios usuários para o Claude e devolveu as respostas como se fossem da sua IA
A Anthropic divulgou nesta semana um relatório de mais de 150 páginas catalogando os episódios mais surreais de uso indevido do Claude identificados e neutralizados pela empresa nos últimos oito meses. O documento reúne casos de espionagem, fraude financeira e manipulação política, com nomes de código, domínios usados pelos criminosos e uma descrição detalhada de como cada operação funcionava por dentro.
A empresa identificou um grupo de espionagem russo que invadiu o sistema de pelo menos três fornecedores de Wi-Fi de hotéis para espalhar malware entre os aparelhos dos hóspedes, técnica que a Microsoft batizou de CaptiveCrunch em julho de 2026.
Ao assumir o controle das redes, os invasores redirecionavam o tráfego dos visitantes e instalavam programas maliciosos em celulares e computadores com sistemas Windows, Android e iOS, usando as informações coletadas para localizar diplomatas e fabricantes de drones ligados à Ucrânia.
O mesmo grupo invadiu o sistema de um órgão de tecnologia do governo no norte da África e roubou mais de 300 mil registros de identidade nacional, além dos dados comerciais de mais de meio milhão de empresas do país.
Em outro caso, criminosos financeiros mantinham uma loja de dados roubados hospedada num domínio que imitava o site da polícia francesa. A vitrine vendia informações de cartões de crédito com localização das vítimas no mapa e chegou a ser usada como base para ameaçar uma empresa de energia, cujos operadores afirmaram ser capazes de controlar remotamente carregadores de veículos elétricos instalados em casas de clientes.
Outro criminoso, de origem russa, invadiu o ambiente de testes de uma fornecedora de inteligência artificial e usou as credenciais obtidas para atacar cerca de 30 empresas do setor em apenas quatro dias, numa tentativa frustrada de acessar uma nova versão do Claude que ainda não havia sido lançada.
O relatório também mostra que golpistas criaram sites falsos que prometiam acesso barato a modelos de inteligência artificial, incluindo cópias do Claude, mas que, na verdade, instalavam programas que roubavam senhas e chaves de acesso das vítimas para revendê-las a outros criminosos.
No campo da vigilância, a Anthropic descreveu uma plataforma chamada Lakana 360, construída para o serviço de inteligência do Mali com o objetivo de analisar as comunicações de cerca de 25 milhões de chips de celular, praticamente toda a base de usuários de telefonia móvel do país.
Segundo a Anthropic, unidades chinesas de segurança e de assuntos religiosos usaram o Claude em frentes distintas, com um escritório passando a produzir milhares de dossiês por mês, outro perfilando uigures na Síria, outro ainda pedindo detalhes de uma marcha pró-democracia em Vancouver e ainda um que montou fichas de líderes religiosos na Ásia, no Tibete e em Taiwan.
Unidades iranianas de segurança usaram o Claude para analisar 155.216 publicações no X e escolher contas da oposição para vigiar.
Entre os casos de manipulação política, um grupo ligado à oposição iraniana no exterior clonou a conta de Telegram de um ativista real, leu mais de 8 mil publicações dele para copiar seu estilo de escrita e passou a conversar com os contatos da vítima, passando-se por ele, sem que ninguém percebesse a troca.
Já instituições estatais iranianas usaram a inteligência artificial para redigir planos administrativos completos, incluindo a organização do funeral do líder supremo do país.
No campo militar, uma célula no norte do Iêmen usou o Claude para integrar software de voo a um computador do tamanho de um celular e para analisar o desempenho de um foguete guiado depois do lançamento. Outro grupo, este de russos, desenvolveu, com apoio da inteligência artificial, sistemas de visão para drones autônomos do tipo kamikaze, treinados com imagens de combate reais capturadas na guerra da Ucrânia.
Operadores chineses usaram o modelo para redigir uma proposta de mais de 200 páginas sobre defesa naval contra torpedos, pedir um briefing sobre sistemas da Marinha dos Estados Unidos, montar um sistema de guerra eletrônica com 16 módulos e simular a supressão de radares de sistemas de defesa antiaérea, incluindo baterias Patriot e THAAD, contra 12 alvos em Taiwan.
Na área biológica, a empresa afirmou que seus filtros barraram pedidos explícitos sobre armas biológicas, mas identificou pesquisadores que usaram redes de proxy para contornar bloqueios geográficos e seguir perguntando sobre patógenos e evasão do sistema imunológico, em parte por meio de outros modelos de IA.
Entre os golpes financeiros, a Anthropic descreveu uma operação sediada na China que criou mais de 4.700 personas artificiais para operar mais de 20 aplicativos de namoro falsos. Em apenas duas semanas de abril, essas personas trocaram 2,36 milhões de mensagens com 25 mil pessoas, um esquema que combinava inteligência artificial com trabalhadores humanos reais numa proporção de três assistentes para cada pessoa, usados principalmente para sustentar chamadas de vídeo que a inteligência artificial ainda não conseguia simular sozinha.
Por fim, o relatório revelou que sete laboratórios chineses de inteligência artificial tentaram extrair de forma indevida as capacidades do Claude para treinar seus próprios modelos. A Alibaba, dona do Qwen, gerou mais de 151 milhões de trocas de mensagens entre maio e julho, com picos de quase 3 milhões por dia, na maior tentativa desse tipo já registrada pela empresa.
Já a Moonshot, dona do assistente Kimi, e a DeepSeek foram além, encaminhando em segredo pedidos de seus próprios usuários para o Claude e devolvendo as respostas como se fossem geradas por seus modelos, sem que ninguém soubesse da troca.
A Moonshot redirecionou cerca de 300 mil pedidos de clientes em dez dias, a maioria para a versão Opus, usando quase 5.400 contas falsas, enquanto a DeepSeek…
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