O animal que consegue enxergar luz ultravioleta e usa essa capacidade para encontrar alimento que os humanos não conseguem perceber
Entenda como os olhos das renas aproveitam a radiação ultravioleta para encontrar alimento e perceber contrastes no ambiente nevado
Enquanto os seres humanos enxergam apenas uma parte limitada do espectro luminoso, as renas possuem uma adaptação visual incomum. Seus olhos permitem que parte da radiação ultravioleta chegue à retina, ampliando a quantidade de informação disponível em ambientes onde a luz é fraca, azulada e refletida pela neve.
Como a visão ultravioleta ajuda as renas no Ártico?
Durante o inverno ártico, a iluminação muda radicalmente. Há períodos prolongados de crepúsculo, enquanto a neve e o gelo refletem fortemente comprimentos de onda curtos. Pesquisadores descobriram que a córnea e o cristalino das renas não bloqueiam completamente a radiação ultravioleta e que tanto bastonetes quanto cones da retina respondem a essa faixa.
Essa característica pode melhorar a percepção de contrastes na paisagem. Em especial, estudos realizados no norte da Noruega mostraram que plantas, líquens e musgos sobre a neve apresentam contraste maior quando observados em comprimentos de onda ultravioleta, o que pode facilitar a localização de alimento durante o inverno.
- A neve reflete grande parte da radiação ultravioleta.
- Muitos materiais vegetais absorvem essa radiação.
- O contraste entre alimento e neve pode aumentar.
- A retina das renas responde à luz ultravioleta.
- O efeito pode ser útil durante períodos de baixa luminosidade.
Um vídeo da BBC Earth mostra como a visão ultravioleta pode ajudar caribus e renas a perceber elementos importantes na paisagem nevada.
O que a visão ultravioleta permite que as renas encontrem?
Os líquens estão entre os elementos mais interessantes nesse processo. Eles constituem uma fonte importante de alimento durante o inverno e, como absorvem radiação ultravioleta, podem aparecer mais escuros contra a neve, que apresenta forte reflexão nessa faixa. Esse contraste oferece uma possível vantagem para animais que precisam localizar alimento sob condições visuais extremas.
A mesma sensibilidade também pode revelar diferenças em outros elementos do ambiente. Pesquisas apontam que a pelagem de lobos pode refletir menos radiação ultravioleta do que a neve ao redor, criando outro tipo de contraste. Isso ajuda a explicar por que essa adaptação pode ter importância tanto para alimentação quanto para percepção de predadores.
Por que os olhos das renas mudam no inverno?
A adaptação não se limita à luz ultravioleta. As renas também apresentam uma mudança sazonal no tapetum lucidum, uma camada refletora localizada atrás da retina. No verão, essa estrutura apresenta tonalidade dourada ou turquesa, enquanto no inverno se torna muito mais azulada.
Essa transformação está relacionada à necessidade de enxergar em níveis extremamente baixos de iluminação. O crepúsculo ártico é dominado por comprimentos de onda azulados, e a alteração do tapetum lucidum aumenta a sensibilidade do sistema visual. O ganho, porém, ocorre acompanhado de uma redução na resolução da imagem, mostrando que a adaptação representa uma troca entre sensibilidade e nitidez.

A visão ultravioleta funciona como uma cor adicional?
Não exatamente. Embora seja comum dizer que as renas “enxergam ultravioleta”, os estudos não encontraram evidências de um fotorreceptor especializado exclusivamente nessa faixa, como ocorre em alguns outros animais. A resposta ultravioleta das renas está associada aos fotorreceptores já presentes em sua retina.
Por isso, o mais preciso é dizer que as renas conseguem utilizar informação luminosa ultravioleta. A vantagem parece estar principalmente no aumento do contraste em determinadas condições, e não necessariamente na percepção de uma nova cor equivalente às cores visíveis para os seres humanos.
Quanto essa adaptação pode melhorar a percepção?
Os pesquisadores compararam imagens de vegetação sobre a neve usando diferentes faixas do espectro. Nas imagens registradas entre 350 e 390 nanômetros, plantas e líquens apareceram com contraste substancialmente maior do que nas imagens em que a radiação ultravioleta era bloqueada.
A própria transmissão de luz pelo olho também é incomum para um mamífero. A combinação entre passagem de ultravioleta, sensibilidade retinal e adaptações do tapetum lucidum cria um sistema visual especialmente ajustado às condições do extremo norte.
O que essa adaptação revela sobre as renas?
A visão ultravioleta mostra como a evolução pode modificar um sistema sensorial de acordo com as condições de um ambiente. Para as renas, neve, pouca luminosidade, alimentação e presença de predadores formam um cenário em que pequenas diferenças na reflexão da luz podem fornecer informações importantes.
O fenômeno também muda a forma como podemos imaginar uma paisagem ártica. Uma superfície aparentemente branca e uniforme para uma pessoa pode apresentar contrastes muito mais marcantes para uma rena. A pesquisa publicada na UCL sobre visão ultravioleta e vegetação sobre a neve reforça que essa capacidade pode aumentar a eficiência desses animais para localizar alimento durante o inverno.
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