Cinco quarteirões somem no mar enquanto a areia reaparece na praia vizinha: o fenômeno mapeado há 60 anos em uma cidade do litoral fluminense
Enquanto uma área perde terreno, outra recebe grande quantidade de areia
Uma praia parece um lugar fixo, mas é só o saldo entre a areia que chega e a areia que sai. No extremo norte do Rio de Janeiro, São João da Barra mostra os dois lados dessa conta ao mesmo tempo: enquanto uma de suas praias recua, outra, a poucos quilômetros, engorda com o mesmo material.
Para onde vai a areia que desaparece em Atafona?
Ela reaparece logo ao sul, em Grussaí. Conforme a Universidade Federal Fluminense (UFF), o monitoramento da linha de costa entre 1954 e 2018 registrou predominância de erosão em Atafona e, no mesmo período, processos de acreção em Grussaí, ou seja, acúmulo de sedimentos.
O trecho estudado não é uma praia qualquer. Ele integra o Complexo Deltaico do rio Paraíba do Sul, que percorre cerca de 1.150 km por três estados antes de desaguar ali, e o laboratório de geografia física da universidade mantém oito pontos fixos de monitoramento entre os dois distritos. É um dos raros casos brasileiros em que dá para ver, no mapa, para onde a areia foi parar.

Como a cidade nasceu de um porto na foz do rio?
Pela dificuldade de chegar ao Rio por terra. A produção de Campos dos Goytacazes descia o Paraíba do Sul em embarcações de fundo chato até o porto local, onde açúcar, gado, milho e queijo eram transferidos para navios rumo à Bahia e à capital, movimento que levou o povoado à condição de cidade em 1850, conforme registra a Prefeitura de São João da Barra.
Depois veio um produto improvável. Em 1908 nasceu ali a indústria de bebidas que criou o Conhaque de Alcatrão, batizado mais tarde com o nome da cidade e conhecido no país inteiro, fabricado em um prédio de 1915 às margens do rio.

Por que o maior porto privado do país foi construído aqui?
Por causa da profundidade natural da costa. O Porto do Açu começou a operar em outubro de 2014 e reúne dois terminais, um em terra e outro em mar aberto, somando cerca de 17 km de cais capazes de receber navios de grande calado.
A escala do empreendimento muda a geografia do município. A retroárea chega a 90 km², o equivalente a cerca de um quinto de todo o território da cidade, espaço que abriga fábricas, bases de apoio a plataformas e serviços logísticos ligados ao petróleo produzido na bacia vizinha.
Quais lugares valem a visita em São João da Barra?
Entre a foz do rio, as lagoas e o centro antigo, os programas ficam a poucos quilômetros uns dos outros. Confira abaixo os principais endereços:
- Parque Estadual da Lagoa do Açu: 8.251 hectares de restinga, mangue e áreas alagadas divididos com Campos dos Goytacazes, com visitação gratuita e duas trilhas, conforme o Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
- Praia de Grussaí: a faixa de areia que ganha sedimento, com estrutura de quiosques e movimento forte no verão.
- Foz do Paraíba do Sul: ponto em Atafona onde o rio encontra o Atlântico, procurado para observar a mudança da cor da água.
- Cais do Imperador: antigo atracadouro do centro histórico, com piso formado por blocos de gnaisse que desenham um mosaico.
- Lagoa Salgada: espelho d’água raso na planície costeira, listado pela Prefeitura entre os atrativos naturais do município.
- Reserva Caruara: área privada de proteção de restinga mantida no entorno do complexo portuário.
Quem quer conhecer o litoral de São João da Barra, vai curtir este vídeo do Rio Para Pobres, com mais de 125 mil inscritos, onde Will Braga monta um roteiro de dois dias.
Como é o clima em São João da Barra durante o ano?
O município fica na planície costeira do norte fluminense, com verão quente e chuvoso e inverno seco e ameno. O vento nordeste é constante quase o ano inteiro e ajuda a mover a areia da própria orla. Veja abaixo como cada período se comporta:
Valores aproximados. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, e vale conferir a previsão atualizada no Climatempo.
Uma cidade escrita pela água
Tudo em São João da Barra passa pelo mesmo elemento. Foi o rio que trouxe a produção de Campos e criou a cidade, é o mar que redesenha as praias todos os anos e é a profundidade da costa que explica o porto instalado ali.
Vale reservar um dia para ver a foz do Paraíba do Sul de perto, atravessar até Grussaí e entender que a areia sob os pés não parou quieta um só ano desde os anos 1950.
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