Fumaça escureceu o céu de Bornéu enquanto incêndios subterrâneos continuavam queimando turfa mesmo longe das chamas visíveis
A seca de 2026 permitiu que o fogo avançasse por depósitos orgânicos subterrâneos e espalhasse fumaça por diferentes regiões do Sudeste Asiático
No início de setembro de 2026, imagens de satélite mostraram grandes plumas de fumaça sobre Bornéu enquanto a Indonésia enfrentava uma das fases mais severas de sua temporada de queimadas. Parte do problema não estava apenas nas chamas visíveis, mas sob o próprio solo, onde os incêndios de turfa conseguiam avançar lentamente em depósitos ressecados pela estiagem. Em 31 de agosto, a plataforma oficial SiPongi registrou 946 hotspots no país, segundo a NASA.
Por que os incêndios de turfa conseguem continuar queimando sob o solo?
A turfa é formada por matéria vegetal parcialmente decomposta acumulada durante longos períodos em ambientes normalmente encharcados. Quando permanece úmida, dificilmente sustenta incêndios profundos. Porém, durante secas intensas, a água desaparece dos poros e camadas orgânicas passam a funcionar como combustível capaz de queimar lentamente sob a superfície.
Foi justamente essa condição que apareceu na Indonésia em 2026. A NASA informou que aproximadamente 90% do país recebeu pouca ou nenhuma chuva no início de agosto. Em Kalimantan, porção indonésia de Bornéu, a seca favoreceu a propagação do fogo por depósitos subterrâneos que normalmente estariam úmidos demais para arder.
O que os satélites encontraram sobre Bornéu no começo de setembro?
O instrumento MODIS, instalado no satélite Aqua da NASA, registrou em 1º de setembro numerosas anomalias térmicas espalhadas principalmente pelo sul da ilha. Cada detecção corresponde a um pixel cuja temperatura indicava possível presença de fogo, mas vários pontos podem representar diferentes partes de um mesmo incêndio.
Os dados ajudam a acompanhar incêndios em regiões extensas onde observações terrestres são mais difíceis. A Indonésia também utiliza informações dos sensores MODIS e VIIRS para monitoramento quase em tempo real, enquanto o órgão meteorológico BMKG acompanha anomalias de temperatura associadas a queimadas florestais e de vegetação.
- 946 hotspots foram registrados pelo SiPongi em 31 de agosto.
- O satélite Aqua observou Bornéu em 1º de setembro.
- MODIS identifica anomalias térmicas compatíveis com fogo.
- Uma mesma queimada pode produzir várias detecções.
- Nuvens podem impedir que alguns focos sejam vistos por satélite.
Este vídeo do CIFOR mostra como incêndios em turfeiras de Kalimantan podem avançar abaixo da superfície e produzir grandes volumes de fumaça.
Por que os incêndios de turfa são tão difíceis de apagar?
Diferentemente de uma frente de fogo que consome vegetação superficial e pode ser observada diretamente, a combustão da turfa pode ocorrer de maneira lenta e sem grandes labaredas. O fogo penetra nas camadas orgânicas secas, segue caminhos subterrâneos e pode permanecer ativo mesmo depois que a superfície aparenta estar apagada.
Isso dificulta o combate porque jogar água apenas sobre a área visível nem sempre alcança o material que continua queimando abaixo. Especialistas citados pela NASA alertaram que, quando o fogo entra nos depósitos de turfa, ele pode persistir até que chuvas prolongadas voltem a encharcar suficientemente o terreno.
Como a fumaça conseguiu atravessar fronteiras em Bornéu?
A fumaça produzida em Kalimantan não permaneceu restrita à Indonésia. No fim de agosto e início de setembro, ventos transportaram a névoa para Sarawak, no lado malaio de Bornéu, além de afetar outras partes da região. Em 4 de setembro, autoridades da Malásia chegaram a declarar emergência no distrito de Serian por causa da qualidade perigosa do ar.
Em 7 de setembro, a emergência foi suspensa após melhora nos índices, embora a poluição ainda permanecesse preocupante. O episódio mostrou como incêndios localizados em turfeiras podem se transformar rapidamente em problema transfronteiriço de saúde pública quando a fumaça é transportada por centenas de quilômetros.

Quais números mostram a dimensão da crise de queimadas?
Os registros de 2026 indicam que o problema já vinha crescendo antes de setembro. Incêndios queimaram quase 95 mil hectares apenas em julho na Indonésia, enquanto regiões de Sumatra e Kalimantan concentravam grande parte das operações de combate. No começo de setembro, incêndios também avançavam perto de Nusantara, futura capital construída no leste de Bornéu.
A NASA registrou a expansão das queimadas e da fumaça sobre a Indonésia e destacou que a estiagem de 2026 tornou as turfeiras particularmente vulneráveis.
| Indicador | Registro |
|---|---|
| Hotspots em 31 de agosto | 946 na Indonésia. |
| Área queimada em julho | Quase 95 mil hectares. |
| Condição de chuva | Cerca de 90% do país teve pouca ou nenhuma chuva no início de agosto. |
| Observação do Aqua | 1º de setembro de 2026. |
Por que os incêndios de turfa podem continuar até a volta das chuvas?
O ponto decisivo é a umidade do solo. Enquanto depósitos profundos de turfa permanecerem secos, brasas podem continuar consumindo lentamente o material orgânico e reacender áreas na superfície. A própria NASA resumiu que esses incêndios subterrâneos podem persistir até outubro ou novembro caso seja necessário esperar a estação chuvosa para reidratar suficientemente o terreno.
Por isso, a ausência de chamas abertas não significa necessariamente que o fogo terminou. Em Bornéu, o episódio de 2026 mostrou como estiagem, drenagem de turfeiras e ignições superficiais podem combinar-se para produzir incêndios persistentes, fumaça intensa e impactos que ultrapassam as áreas diretamente queimadas.
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