Moraes acusa o espelho
Sem ter como explicar as relações com Vorcaro, relator do inquérito das fake news acusa Mendonça da própria conduta com relatório apócrifo
Seria o final de temporada perfeito para um série policial: acusado de cometer uma série de excessos e desvios na condução de vários processos, um controverso e popular juiz acusa de todos os seus potenciais crimes um colega que ousou considerar a sua investigação.
Mas trata-se da República brasileira, que atingiu um de seus momentos mais baixos no despacho em que Alexandre de Moraes (foto) usou o eterno inquérito das fake news para retaliar o colega de Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça por expor suas relações com Daniel Vorcaro.
No pedido de investigação de Mendonça, o relator do inquérito das fake news vai muito além do que o colega foi ao informar ao plenário sobre suas relações suspeitas com o ex-banqueiro do Master.
Moraes considera que Mendonça pode ter cometido os crimes de improbidade administrativa, o crime de responsabilidade, de abuso de autoridade, com quebra da imparcialidade judicial e favorecimento a determinados grupos políticos.
Mendonça não o acusou de nada, apenas revelou, por meio de uma investigação da Polícia Federal (PF), que era ele o receptor de mensagens de Vorcaro, e mais do que isso, que o ministro agia como um consultor do enrolado banqueiro, que tinha um contrato milionário com o escritório de advocacia de sua mulher e o tratava como o mais importantes do banco.
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“DE OFÍCIO”
O próprio Moraes vem sendo acusado informalmente de tudo o que acusa Mendonça, desde 2019, quando Dias Toffoli abriu o inquérito das fake news de ofício e lhe entregou a relatoria.
Aliás, Moraes critica que Mendonça “determinou – DE OFÍCIO – diligência investigatória policial para a produção ilegal de provas contra o Ministro Alexandre de Moraes, com a agravante excepcional de ter determinado à Polícia Federal a realização da diligência sem ter assinado a decisão judicial e sem ter feito da comunicação pelas vias procedimentais legais, bem como ter subtraído o conhecimento da mesma da Procuradoria-Geral da República ‘Relatório de Inteligência’”.
O grifo no “de ofício” é do próprio Moraes, que usou um relatório apócrifo da Polícia Federal cheio de ilações políticas, classificadas pelos próprios autores como de confiança “baixa” ou “moderada” e “sem valor probatório” para embasar seu despacho sobre Mendonça.
O próprio Moraes, que recebeu em agosto em sua casa o presidente da República, Lula, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para uma reunião que destravou a pauta de votações no Congresso Nacional, não sobreviveria ao mesmo nível de escrutínio.
Sem defesa
Esse Moraes que aponta o dedo para um colega de tribunal por não ter feito “comunicação pelas vias procedimentais legais” é o mesmo que foi flagrando no escândalo da Vaza Toga comandando investigações e direcionando coleta de provas fora das vias procedimentais, usando estrutura do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) depois de tê-lo deixado, após a eleição de 2022.
O julgamento da trama golpista, de que Moraes foi relator, também foi permeado por diversos excessos e medidas controversas, sem falar nas outras investigações sobre Jair Bolsonaro e seu grupo político, todas comandadas pelo mesmo juiz, potencial vítima em várias delas.
Enfim, Moraes acusa o espelho ao tentar colocar Mendonça na mesma situação em que ele próprio se se encontra, e o faz de uma maneira totalmente vulgar, com um documento da PF que lembra os panfletos apócrifos que circulam contra a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD).
Tudo isso porque não tem como explicar as relações com Vorcaro.
O STF precisa decidir logo se seguirá servindo de escudo para quem não merece defesa, porque a degradação provocada por Moraes foi muito profunda e o tribunal já tem trabalho demais para tentar se reconstruir.
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