Novo proprietário fecha abertura existente no muro e vizinha perde único acesso à bomba de água utilizada havia 16 anos
O fechamento por segurança não encerra a discussão, porque tempo de uso, finalidade da passagem e necessidade de manutenção podem alterar a situação.
Uma pequena passagem no muro ficou aberta por 16 anos e era usada por Helena para alcançar a bomba de água instalada entre os imóveis. Depois de comprar a casa vizinha, Ricardo fechou o vão por segurança. A discussão envolve manutenção e possível servidão de passagem.
O novo proprietário pode simplesmente fechar uma abertura antiga?
Depende da natureza daquele acesso. Ser dono do imóvel permite fazer alterações no próprio bem, mas Ricardo precisa considerar eventual direito de Helena sobre a passagem e as regras que obrigam vizinhos a tolerar certos acessos indispensáveis.
O fato de a abertura existir havia anos não basta, sozinho, para definir sua situação jurídica. É necessário verificar como ela foi criada, quem autorizou o uso e se existe registro ou outro título relacionado à passagem.

Usar a passagem durante 16 anos cria uma servidão?
Não automaticamente. O Código Civil prevê que a servidão pode ser constituída por declaração expressa dos proprietários ou testamento, seguida de registro. Também admite aquisição por usucapião quando existe servidão aparente exercida de modo incontestado e contínuo e os requisitos legais são preenchidos.
O artigo 1.379 trabalha com prazo de dez anos nas condições do artigo 1.242 e estabelece vinte anos quando o possuidor não tem título. Portanto, os 16 anos de uso são relevantes, mas não permitem concluir, sem outros elementos, que Helena já adquiriu o direito real.
Alguns documentos ajudam a reconstruir a origem da passagem:
A necessidade de alcançar a bomba muda a situação?
Sim. O artigo 1.313 do Código Civil determina que o proprietário ou ocupante deve tolerar a entrada do vizinho, mediante prévio aviso, quando o uso temporário do imóvel for indispensável a determinadas reparações.
Essa regra pode sustentar acesso temporário para manutenção necessária, dependendo da localização e função da bomba. Ela não significa, porém, que Helena tenha automaticamente o direito de manter para sempre exatamente aquela abertura no muro.
As fotografias antigas provam que Helena tem direito à passagem?
As imagens são importantes porque podem demonstrar que o vão era visível, permanente e utilizado durante longo período. Em matéria de direitos de vizinhança, a aparência física e a forma de utilização podem ajudar a diferenciar simples tolerância de situação juridicamente protegida.
Fotografias, contudo, não substituem sozinhas os demais requisitos. A análise precisa considerar eventual oposição dos antigos proprietários, documentos, configuração da passagem e se havia obras permanentes indicando sua finalidade.
Os principais pontos podem ser separados assim:
Ricardo pode alegar segurança para manter o muro fechado?
Segurança é uma justificativa que pode ser considerada, especialmente se a abertura permitia ingresso indevido ou comprometia o fechamento do imóvel. Ainda assim, ela não elimina um direito de acesso que venha a ser comprovado.
Se houver necessidade apenas de manutenção periódica, uma solução diferente da abertura permanente pode ser suficiente, como acesso previamente combinado ou outro meio tecnicamente viável. A alternativa deve preservar os direitos dos dois imóveis.
O que pode definir se a abertura terá de ser restabelecida?
O ponto decisivo é identificar se Helena possuía apenas uma permissão tolerada pelos antigos donos ou uma situação possessória ou direito real protegido. Os 16 anos, as fotografias e as características físicas do vão ajudam, mas não encerram essa investigação.
Mesmo que não exista direito de manter a abertura, Ricardo pode ter de permitir entrada pontual quando ela for juridicamente indispensável à manutenção. Se houver servidão reconhecível ou outro direito consolidado, o fechamento unilateral pode exigir restabelecimento do acesso ou solução equivalente.
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