Uma cidade inteira foi planejada para caber entre montanhas e deserto, com torres de barro que continuam de pé há séculos sem depender do concreto moderno
Casas-torre de tijolos de barro transformaram uma pequena área murada do Iêmen em um dos exemplos mais antigos de urbanismo vertical
No vale de Hadramaut, no Iêmen, a antiga cidade murada de Shibam reúne casas-torre construídas principalmente com tijolos de barro secos ao sol, concentradas em uma malha urbana extraordinariamente compacta. As torres de Shibam mostram que construir em altura não é uma invenção das cidades modernas: a configuração que domina o conjunto atual remonta sobretudo ao século XVI, embora a ocupação do local seja muito mais antiga. A UNESCO considera a cidade um dos exemplos mais antigos e importantes de planejamento urbano baseado na construção vertical.
Por que as torres de Shibam foram construídas tão próximas umas das outras?
Shibam desenvolveu-se sobre um esporão rochoso junto ao Wadi Hadramaut e dentro de uma área protegida por muralhas. Suas ruas e praças seguem uma organização aproximadamente retangular, enquanto as residências crescem verticalmente e ficam muito próximas. A UNESCO relaciona essa alta densidade à necessidade histórica de proteção e refúgio diante de disputas entre famílias e ameaças externas.
Essa configuração permitia concentrar muitas moradias dentro de um perímetro defensável sem espalhar a população pela planície. O resultado lembra uma pequena cidade de edifícios altos, razão pela qual Shibam ficou conhecida como “Manhattan do deserto”. O apelido é moderno, mas a lógica vertical da cidade é anterior em vários séculos aos arranha-céus de aço e concreto.
Como edifícios de barro conseguem alcançar vários andares?
As paredes foram erguidas tradicionalmente com tijolos de terra seca ao sol e revestimentos de barro. O material trabalha principalmente à compressão, e as paredes inferiores precisam suportar o peso acumulado dos pavimentos superiores. Por isso, construções desse tipo dependem de proporções, espessuras e manutenção compatíveis com as limitações do material.
A maioria das fontes da UNESCO descreve as residências históricas de Shibam chegando a cerca de sete pavimentos, embora documentação recente de conservação mencione exemplares que alcançam até 11 andares. Não é necessário imaginar esqueletos modernos de concreto para explicar as torres tradicionais: sua estabilidade deriva do próprio sistema construtivo em terra, associado a componentes de madeira e à manutenção periódica.
- Tijolos eram moldados com terra e secos ao sol.
- Paredes estruturais suportavam os pavimentos superiores.
- Casas eram agrupadas densamente dentro das muralhas.
- Revestimentos protegiam a superfície das paredes.
- Reparos periódicos eram indispensáveis para conservar a construção.
Este vídeo oficial da UNESCO apresenta a cidade murada e suas casas-torre tradicionais.
Por que as torres de Shibam não simplesmente se desfazem com o tempo?
Construções de terra podem durar séculos, mas isso não significa que sejam imunes à chuva ou abandonadas à própria sorte. O barro precisa ser protegido e reparado. Chuvas intensas, infiltrações e drenagem inadequada representam ameaças particularmente graves porque a água pode provocar erosão superficial, perda de material e danos estruturais.
Esse risco permanece atual. A UNESCO informa que enchentes, mudanças climáticas, deterioração dos edifícios e os efeitos do conflito no Iêmen ameaçam o patrimônio. Em 2021, um projeto de conservação havia avaliado centenas de construções e identificado danos em grande parte delas, evidenciando que a sobrevivência da arquitetura depende de manutenção contínua.
A cidade realmente foi planejada dessa forma por causa da defesa?
A função defensiva é uma parte importante da explicação, mas não a única. Segundo a UNESCO, a densidade das casas-torre expressava tanto a necessidade de proteção entre grupos rivais quanto prestígio econômico e político. Shibam também ocupava posição relevante numa antiga rota de caravanas ligada ao comércio de especiarias e incenso.
O desenho urbano combinava muralha, ruas estreitas, poucas aberturas no nível térreo e construções de vários pavimentos. Uma descrição histórica da UNESCO também menciona passagens elevadas entre algumas casas, que poderiam facilitar deslocamentos internos em situações de ameaça.

O que as torres de Shibam revelam sobre a escala da cidade?
A cidade histórica que vemos hoje foi fortemente reconstruída após uma grande inundação ocorrida em 1532–1533. Embora existam construções e evidências de ocupação muito anteriores, grande parte da arquitetura residencial preservada representa principalmente o desenvolvimento urbano dos séculos XVI ao XIX.
Os números ajudam a entender por que esse conjunto é excepcional. A própria documentação da UNESCO sobre a Cidade Antiga Murada de Shibam destaca a combinação de altura, densidade e planejamento vertical como elemento central de seu valor histórico.
| Característica | Informação |
|---|---|
| Material tradicional | Tijolos de barro secos ao sol. |
| Altura comum documentada | Até cerca de sete pavimentos. |
| Plano urbano | Malha compacta e fortificada. |
| Inscrição na UNESCO | 1982. |
Por que essa arquitetura permanece tão importante atualmente?
Shibam demonstra como materiais locais, adaptação ambiental e organização urbana podem produzir edifícios de grande altura sem recorrer aos sistemas estruturais que hoje associamos aos arranha-céus. A arquitetura também está integrada à agricultura do vale, pois a UNESCO destaca a relação histórica entre irrigação por cheias, produção de lama e uso dessa terra nas construções.
Ao mesmo tempo, essa tradição é vulnerável. O uso inadequado de materiais modernos, a perda de técnicas tradicionais, as enchentes e a falta de manutenção podem alterar ou destruir justamente as características que tornaram a cidade excepcional. A longevidade das torres, portanto, não vem de um barro indestrutível, mas de técnicas construtivas desenvolvidas ao longo de gerações e renovadas continuamente.
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