Existe uma espécie de neve caindo continuamente dentro do oceano, e parte dela consegue atravessar 4.000 metros de água em apenas uma semana
Agregados de matéria orgânica transportam alimento e carbono das águas superficiais para regiões abissais do oceano
Nas regiões escuras do oceano profundo, câmeras de veículos submarinos frequentemente registram uma chuva constante de pequenos flocos. É a neve marinha, formada principalmente por material biológico que deixa as águas superficiais e começa a afundar. Parte dessas partículas é consumida ou decomposta durante a descida, mas agregados maiores podem percorrer cerca de 4.000 metros em apenas uma semana, transportando alimento e carbono para regiões onde a luz solar nunca chega.
O que é a neve marinha que cai continuamente pelo oceano?
Apesar do nome, não existe gelo envolvido. A NOAA descreve essa chuva submarina como uma mistura que começa principalmente com fitoplâncton, microrganismos e outros resíduos biológicos produzidos próximo à superfície. Conforme afundam, as partículas incorporam material adicional e podem formar agregados visíveis como pequenos flocos.
Neles podem existir restos de organismos mortos, matéria em decomposição, material fecal produzido por animais marinhos, sedimentos e partículas vindas do continente ou da atmosfera. Substâncias pegajosas produzidas por organismos também favorecem a agregação. Assim, pequenos fragmentos inicialmente dispersos podem se transformar em estruturas maiores durante a descida.
Como a neve marinha consegue atravessar 4.000 metros em apenas uma semana?
Partículas microscópicas isoladas podem afundar extremamente devagar. A situação muda quando elas se unem. Um relato científico da NOAA sobre o Golfo do Alasca explica que microrganismos individuais podem levar muito tempo para descer, enquanto agregados grandes e pesados de material particulado podem alcançar um fundo situado a aproximadamente 4.000 metros dentro de uma semana.
Isso equivale, como ordem de grandeza, a centenas de metros de descida por dia nos agregados particularmente rápidos. Não é, porém, uma velocidade universal. O tamanho, a densidade, a composição das partículas, as correntes e sua degradação durante o trajeto modificam bastante o tempo de afundamento. Outros flocos podem permanecer semanas na coluna d’água antes de chegar ao fundo.
- Restos de fitoplâncton e outros organismos podem integrar os agregados.
- Pelotas fecais produzidas por animais ajudam a transportar matéria rapidamente.
- Partículas podem se unir e aumentar de tamanho durante a descida.
- Microrganismos consomem e transformam parte do material antes que ele alcance grandes profundidades.
- Correntes horizontais e verticais podem alterar sua trajetória.
Este vídeo da Universidade de Sydney mostra como a neve marinha participa do transporte de carbono para as profundezas.
Por que grande parte desse material desaparece antes de chegar ao fundo?
A descida ocorre através de uma coluna d’água cheia de organismos. Bactérias degradam matéria orgânica, enquanto zooplâncton e outros animais capturam ou consomem partículas. Por isso, a quantidade de carbono presente na chuva que deixa as águas superficiais diminui progressivamente à medida que aumenta a profundidade.
A NOAA explica que apenas uma pequena fração do material consegue chegar ao leito oceânico. Estimativas apresentadas por seus pesquisadores indicam que menos de 1% do carbono orgânico particulado produzido pela bomba biológica alcança globalmente o fundo profundo, onde parte pode permanecer armazenada por escalas geológicas.
Como essa chuva consegue alimentar animais que vivem sem luz solar?
Abaixo da zona iluminada, a fotossíntese deixa de sustentar diretamente os ecossistemas. Para inúmeros organismos do fundo, a matéria orgânica produzida muito acima funciona como uma conexão energética com a superfície. Animais podem filtrar as partículas enquanto elas caem ou consumir o material acumulado sobre os sedimentos.
Na Station M, área abissal estudada pelo MBARI a cerca de 4.000 metros de profundidade e 220 quilômetros da costa central da Califórnia, a matéria orgânica que afunda constitui a fonte de alimento para as comunidades do fundo. Pesquisas realizadas ali acompanham há décadas como mudanças nesse fluxo afetam os organismos abissais.

Quais números ajudam a entender a neve marinha?
A profundidade alcançada e o tempo de viagem variam muito, portanto o exemplo dos 4.000 metros em uma semana representa agregados capazes de afundar rapidamente, não todos os flocos. A NOAA também observa que algumas partículas podem levar semanas para alcançar o fundo.
Mesmo assim, o fluxo acumulado tem consequências enormes. Além de alimentar ecossistemas profundos, ele transfere carbono capturado nas águas superficiais para o interior do oceano e, em alguns casos, para sedimentos profundos. Esse mecanismo integra a chamada bomba biológica de carbono.
| Característica | Referência |
|---|---|
| Descida rápida documentada | Cerca de 4.000 m em uma semana |
| Viagem de outros flocos | Pode durar semanas |
| Station M | Cerca de 4.000 m de profundidade |
| Carbono que alcança o fundo profundo | Globalmente, menos de 1% do produzido pela bomba biológica |
Por que essa queda de partículas também interfere no ciclo do carbono?
O fitoplâncton utiliza carbono inorgânico dissolvido durante a fotossíntese e converte parte dele em matéria orgânica. Quando essa matéria entra na cadeia alimentar e posteriormente afunda, uma parcela do carbono acompanha as partículas para zonas profundas, afastando-se das trocas rápidas que ocorrem perto da atmosfera.
Nem todo esse carbono fica armazenado definitivamente: grande parte é respirada, dissolvida ou reciclada antes de chegar ao sedimento. Ainda assim, a transferência contínua realizada pela bomba biológica é uma peça fundamental do ciclo global do carbono. Aquela aparência de “nevasca” registrada por câmeras profundas é, portanto, a parte visível de um processo que conecta vida superficial, ecossistemas abissais e clima.
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