O ‘amor’ de Augusto Cury pode ser o imponderável da eleição de 2026
Consolidação do escritor na terceira posição mostra que brasileiro pode estar cansado da política do 'nós contra eles'
Há uma ironia saborosa na eleição de 2026: quanto mais os candidatos se esforçam para convencer o eleitor de que o Brasil está diante de uma batalha épica entre o bem e o mal, mais espaço parece surgir para alguém que simplesmente pede que todos baixem as armas.
Esse alguém é Augusto Cury, candidato do Avante.
Até outro dia tratado como uma espécie de personagem lateral da corrida presidencial, o escritor começou a aparecer no retrovisor dos candidatos que acreditavam ter reservado para si um quinhão do eleitorado refém da polarização.
Cresceu nas pesquisas, se consolidou na terceira posição, ganhou milhões de seguidores e, sobretudo, encontrou uma mensagem que nenhum dos grandes contendores parece disposto a assumir integralmente: talvez o brasileiro esteja cansado de tanto ódio.
É uma hipótese que as campanhas deveriam levar a sério.
A política brasileira descobriu há algum tempo que indignação dá mais audiência que serenidade, que ataque viraliza mais que proposta e que transformar o adversário em uma ameaça existencial é muito mais eficiente para mobilizar a militância do que falar de juros, produtividade ou qualidade dos serviços públicos.
Lula conhece esse mecanismo. O bolsonarismo também.
Mas isso custou caro: briga entre familiares, incapacidade de diálogo e cancelamentos em série nas redes sociais. O brasileiro está cansado disso. Está cansado da política do ódio. Está cansado dessa polarização doentia e tóxica.
Augusto Cury e o cansaço da política do ‘nós contra eles’
Cury sabe disso e resolveu entrar em campo usando outra bola: a do amor e do ‘bom velhinho’, aquele que as tias do Zap querem apertar, que os netos querem abraçar e que os filhos respeitam pela experiência.
Saiba mais: “Nós conseguimos furar a bolha da polarização”, diz vice de Cury
Cury fala de amor. De pacificação. De reconciliação. De saúde emocional. De reconstrução das relações humanas. Ele quer levar o brasileiro para a terapia, as famílias para a constelação familiar, as instituições para o divã. Pode soar excessivamente sentimental para uma eleição presidencial — e talvez seja exatamente esse o seu trunfo. Talvez essa a necessidade do brasileiro de hoje.
Sempre defendi que eleição é emoção, não razão. É uma polarização entre amor e ódio; medo e esperança.
Enquanto Flávio Bolsonaro (PL), Lula (PT), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Zema (Novo) tentam conquistar o eleitor por meio do medo do inimigo, Cury vende esperança.
Cury aparece dizendo que talvez seja possível simplesmente não escolher entre duas versões do mesmo conflito. Jair Bolsonaro, em 2018, foi a personificação – naquele momento histórico – de uma esperança para combater o tucanato e o petismo. Deu certo. Lula vendeu a esperança contra o medo do PSDB em 2002, também deu certo.
Depois de anos sendo convidado a escolher de quem deveria ter raiva, o brasileiro pode estar procurando alguém que simplesmente diga que não precisa odiar ninguém.
Assim, Cury cresce porque os outros esqueceram que o eleitor pode estar cansado de tanta guerra.
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