Transportar um iceberg para levar água ao deserto: o ambicioso experimento de um príncipe saudita que desafiou a engenharia
O desafio envolvia distância, calor e uma operação gigantesca
Em 1977, uma proposta que parecia ficção científica reuniu engenheiros, oceanógrafos e especialistas em água doce em Ames, no estado de Iowa. O príncipe saudita Mohammed Al-Faisal defendia estudar o transporte de grandes icebergs da Antártida até regiões áridas para transformá-los em fonte de água.
O que o príncipe saudita realmente tentou fazer em 1977?
A proposta maior era rebocar icebergs antárticos até a Península Arábica. O próprio Mohammed Al-Faisal publicou naquele ano um trabalho na revista Desalination descrevendo busca, inspeção, proteção contra derretimento e transporte de icebergs do entorno do Mar de Weddell até o Golfo de Áden e a costa saudita.
O plano não chegou a colocar um iceberg antártico em viagem até a Arábia Saudita. O que ocorreu de forma concreta foi uma demonstração muito menor nos Estados Unidos.

Como um pedaço de gelo do Alasca foi parar em Iowa?
A Iowa State University preserva os registros da Primeira Conferência Internacional sobre Utilização de Icebergs, realizada entre 2 e 6 de outubro de 1977. Cerca de 175 cientistas participaram das discussões.
Um grande bloco de gelo do Glaciar Portage, no Alasca, foi transportado até o campus para a conferência. Registros jornalísticos da época descrevem uma peça de aproximadamente uma tonelada levada de avião e caminhão até Ames.
Por que alguém acreditava que um iceberg poderia abastecer um deserto?
Icebergs são formados por água doce congelada. A ideia era selecionar grandes blocos antárticos, protegê-los parcialmente contra o derretimento e usar rebocadores para atravessar milhares de quilômetros de oceano.
O trabalho publicado pelo príncipe também propunha aproveitar a enorme massa fria para alterar condições de microclima em áreas costeiras quentes e úmidas. Na época, a Arábia Saudita já investia fortemente em dessalinização, e os estudos comparavam as duas alternativas.
- Seleção: localizar icebergs grandes e estruturalmente estáveis.
- Proteção: reduzir as perdas de gelo durante a viagem.
- Reboque: controlar uma massa enorme em correntes e mares diferentes.
- Uso final: captar a água liberada pelo derretimento perto da costa.
O projeto chegou a levar um iceberg para a Arábia Saudita?
Não. Os arquivos da Iowa State University mostram que o objetivo de Al-Faisal era conseguir transportar um iceberg para sua região dentro de cerca de 10 anos. Esse marco nunca ocorreu.
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Por que a ideia acabou ficando no papel?
Os desafios eram enormes: derretimento durante a viagem, necessidade de rebocadores, proteção do gelo, rotas oceânicas, custos e dúvidas ambientais. O arquivo histórico da universidade registra que o interesse de Al-Faisal e dos principais organizadores havia terminado até 1982, em grande parte pela falta de apoio do governo saudita.
A demonstração de Iowa não provou que um iceberg pudesse atravessar da Antártida ao deserto. Ela transformou uma proposta ousada em objeto de discussão científica e deixou um dos episódios mais curiosos da história moderna da engenharia de abastecimento de água.
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