Josias Teófilo na Crusoé: O embate entre Ariano Suassuna e Gilberto Freyre
Suassuna era um nacionalista, rejeitava estrangeirismos e até mesmo a influência estrangeira na cultura. Freyre era o oposto
Nunca vi ninguém falar publicamente sobre o assunto. Entretanto, nas entrelinhas, é possível notar divergências e certa hostilidade entre Ariano Suassuna e Gilberto Freyre, dois expoentes da cultura brasileira. E essas divergências expõem duas visões distintas sobre a cultura.
Ariano Suassuna nasceu em 1927, vinte e sete anos depois de Gilberto Freyre. Era da geração seguinte e colheu muitos dos frutos culturais de uma iniciativa realizada por Freyre próximo ao ano de seu nascimento: o Congresso Regionalista de 1926.
O congresso propôs uma visão tradicionalista, regionalista e modernista a seu modo, diferente do modernismo paulista, cosmopolita, vanguardista e introdutor de modas europeias no Brasil.
Enquanto a Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Theatro Municipal de São Paulo em fevereiro daquele ano, propunha romper com a tradição artística luso-brasileira, o Congresso Regionalista de Gilberto Freyre, em polêmica com a primeira, propunha recuperar e preservar as tradições artísticas brasileiras a partir de um olhar regional.
Ora, todo o trabalho de Ariano Suassuna se dá dentro do regionalismo, e ele se tornou um dos maiores representantes dessa unidade cultural criada por Freyre: o Nordeste.
E o próprio Freyre escreveu elogiosamente sobre Ariano Suassuna quando este ainda era um jovem dramaturgo.
Freyre escreveu sobre vários grandes artistas quando ainda eram jovens, especialmente pernambucanos, como o ceramista Francisco Brennand e o violinista Cussy de Almeida.
Em 18 de outubro de 1970, Ariano Suassuna lançou oficialmente o Movimento Armorial na Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife.
Gilberto Freyre, estranhamente, não comentou a iniciativa. Em 1962, Ariano dizia que buscava “evitar tanto a atitude dos que negavam a importância de Gilberto Freyre quanto a dos que nunca discordavam dele”.
Na realidade, havia mais do que uma simples divergência, o que veio à tona apenas muito depois da morte de Freyre, em 1987 — o que foi bastante conveniente para o dramaturgo, já que este não estava mais neste mundo para rebater.
No final do…
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