Sem perseguir a vítima por longas distâncias, esta serpente consegue detectar o calor emitido pelo corpo de pequenos animais e atacar mesmo quando praticamente não existe luz ao redor
Órgãos sensíveis ao infravermelho ajudam cascavéis e outras crotalíneas a localizar presas quando a visão oferece poucas informações
Algumas serpentes caçam de emboscada e possuem um recurso sensorial particularmente eficiente quando a iluminação é mínima. As fossetas loreais, presentes nas víboras da subfamília Crotalinae, detectam radiação infravermelha emitida por objetos mais quentes que o ambiente, incluindo pequenos mamíferos e aves. Cascavéis, jararacas e outras crotalíneas conseguem combinar essa informação térmica com visão e sinais químicos para orientar ataques a curta distância.
Como as fossetas loreais detectam o calor de uma presa?
Nas crotalíneas, existe uma fosseta de cada lado da cabeça, posicionada entre o olho e a narina. Dentro dela fica uma membrana extremamente fina, ricamente inervada, que recebe a radiação infravermelha proveniente do ambiente. Essa energia aquece discretamente o tecido e desencadeia sinais nervosos enviados ao cérebro.
Portanto, a serpente não enxerga infravermelho utilizando os olhos da mesma maneira que percebe luz visível. O sistema funciona por termossensibilidade, e estudos identificaram o canal TRPA1 como uma peça importante na transformação do aquecimento da membrana em atividade nervosa. A pesquisa publicada na Nature ajudou a esclarecer esse mecanismo molecular.
O que acontece quando praticamente não existe luz ao redor?
A capacidade de detectar diferenças térmicas oferece uma vantagem especialmente importante durante atividades noturnas. Experimentos mostram que serpentes sensíveis ao infravermelho conseguem localizar e atacar presas mesmo quando os sinais visuais são bastante reduzidos ou eliminados, embora outros sentidos também participem da orientação.
Durante uma aproximação ou emboscada, diferentes informações podem trabalhar juntas:
- Radiação infravermelha ajuda a localizar regiões mais quentes;
- Visão fornece informações adicionais quando existe luminosidade;
- Língua e órgão vomeronasal captam pistas químicas;
- Movimentos da cabeça podem melhorar a localização espacial do alvo.
Este vídeo da BBC Earth mostra uma víbora utilizando seus sistemas sensoriais durante uma caçada noturna e explica o papel da percepção térmica.
As fossetas loreais produzem uma imagem térmica igual à de uma câmera?
A comparação com uma câmera térmica é útil apenas como simplificação. A abertura da fosseta funciona de maneira semelhante ao princípio de uma câmera de orifício, permitindo que diferentes regiões da membrana recebam radiação proveniente de diferentes direções. Entretanto, a imagem térmica formada inicialmente possui resolução limitada e baixo contraste.
O sistema nervoso processa essas informações e integra sinais térmicos com dados de outros sentidos. Estudos neurofisiológicos mostram que informações provenientes das fossetas alcançam regiões cerebrais nas quais podem ser combinadas com estímulos visuais, aumentando a capacidade da serpente de determinar a posição de um alvo.
Por que cascavéis conseguem caçar sem perseguir a presa por grandes distâncias?
Muitas cascavéis empregam estratégia de emboscada. Em vez de gastar energia perseguindo continuamente pequenos mamíferos, permanecem imóveis em locais onde existe maior probabilidade de uma presa passar. Quando o animal entra na distância adequada, visão, pistas químicas e infravermelho ajudam a orientar o bote.
Isso não significa que as fossetas funcionem como um radar capaz de localizar qualquer animal a grandes distâncias. O desempenho depende do tamanho e da temperatura da presa, da distância, da temperatura do fundo e das condições ambientais. Estudos experimentais e modelos térmicos mostram que o alcance útil é limitado e funciona principalmente em distâncias compatíveis com aproximação e ataque.

Quais serpentes possuem fossetas loreais e quais usam sistemas diferentes?
As verdadeiras fossetas loreais são características das víboras da subfamília Crotalinae, grupo que inclui cascavéis e várias jararacas. Nessas serpentes, existe um órgão bem desenvolvido em cada lado da cabeça, localizado entre o olho e a narina.
Boas e pítons também apresentam capacidade de detectar infravermelho, mas suas estruturas não devem ser chamadas simplesmente de fossetas loreais. Pítons possuem fossetas labiais distribuídas pelo focinho, enquanto diferentes boas apresentam receptores infravermelhos associados às escamas labiais.
| Grupo | Sistema infravermelho |
|---|---|
| Cascavéis | Par de fossetas loreais |
| Outras crotalíneas | Par de fossetas loreais |
| Pítons | Fossetas labiais |
| Boas sensíveis ao infravermelho | Receptores associados às escamas labiais |
Por que as fossetas loreais são tão eficientes durante a caça noturna?
Um pequeno mamífero geralmente apresenta temperatura superficial diferente daquela de folhas, pedras ou solo ao redor. Essa diferença cria contraste térmico suficiente para que o sistema sensorial de uma crotalínea obtenha informação sobre direção e movimento, sobretudo quando o cenário visual está escuro.
A vantagem está justamente na combinação dos sentidos. As fossetas não substituem completamente visão, olfato ou percepção química, mas acrescentam um canal de informação que permanece disponível quando a luz visível diminui. Por isso, serpentes como cascavéis conseguem realizar ataques extremamente precisos mesmo em condições nas quais um pequeno roedor seria difícil de localizar apenas pelos olhos.
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