Em rios da América do Sul, um predador pode detectar movimentos próximos à superfície e lançar o corpo para fora da água para capturar animais sobre galhos baixos ou junto às margens
Aceleração explosiva e uma boca voltada para cima permitem que o peixe explore presas na fronteira entre a água e a floresta
Nas águas calmas e áreas alagadas da Amazônia vive um peixe capaz de transformar a fronteira entre rio e floresta em área de caça. A aruanã-prateada (Osteoglossum bicirrhosum) permanece frequentemente próxima à superfície e pode saltar para capturar grandes insetos e até pequenas aves em vegetação baixa. Estudos de seu comportamento mostram que esses ataques envolvem aceleração rápida, movimentos específicos do corpo e ajustes da abertura da boca durante a saída da água.
Como a aruanã-prateada consegue capturar animais fora da água?
A boca voltada para cima é uma característica importante desse peixe. Ela permite atacar presas posicionadas na superfície enquanto a aruanã se aproxima por baixo. O FishBase registra que a espécie tende a capturar peixes próximos à superfície e também salta para apanhar grandes insetos. Exemplares podem atingir cerca de 90 centímetros, com registros de peso de até 6 quilos.
O comportamento vai além de pequenos saltos ocasionais. O Smithsonian descreve indivíduos permanecendo próximos a árvores caídas e usando essa cobertura antes de atacar, inclusive saltando para alcançar insetos, outros peixes e pequenas aves pousadas em galhos baixos. Esse hábito ajudou a render à espécie o apelido de “macaco-d’água” em algumas regiões.
O que acontece com o corpo do peixe durante um salto de caça?
Experimentos filmados em alta velocidade mostraram que ataques contra presas acima da superfície são diferentes daqueles realizados inteiramente debaixo d’água. Antes de emergir, o peixe utiliza uma aceleração explosiva e movimentos corporais capazes de gerar impulso suficiente para abandonar temporariamente o ambiente aquático.
- Aproximação: O peixe posiciona-se abaixo ou próximo da presa.
- Aceleração: Movimentos rápidos do corpo produzem impulso.
- Saída: A cabeça atravessa a superfície antes da abertura máxima da boca.
- Captura: Mandíbulas realizam movimentos maiores durante ataques aéreos.
- Retorno: O animal cai novamente na água depois da tentativa.
O vídeo abaixo registra uma aruanã-prateada realizando justamente um salto para capturar alimento acima da superfície, permitindo observar a aceleração usada antes de abandonar a água.
Por que a aruanã-prateada caça tanto perto da superfície?
A aruanã-prateada vive em rios, várzeas e áreas inundadas da bacia Amazônica e de outros sistemas do norte da América do Sul. Na cheia, a água invade regiões florestadas e coloca o peixe diretamente abaixo de galhos, folhas e organismos terrestres, aumentando as oportunidades de capturar alimento que normalmente estaria fora do ambiente aquático.
Um estudo publicado em 2025 encontrou artrópodes em grande parte do conteúdo alimentar analisado: 72% dos itens identificados eram desse grupo, enquanto peixes, répteis e mamíferos apareceram em proporções menores. Os pesquisadores classificaram a espécie como generalista e oportunista, mas com forte tendência à insetivoria.
Visão e vibrações da água ajudam a preparar o ataque?
Peixes possuem a linha lateral, um sistema mecanossensorial capaz de detectar movimentos da água e gradientes de pressão. Essa informação pode contribuir para orientação e detecção de alterações próximas ao corpo. Entretanto, atribuir especificamente cada salto da aruanã a vibrações percebidas pela linha lateral seria ir além das evidências disponíveis sobre esse comportamento.
A visão tem importância evidente quando o alvo está acima da água, mas surge uma dificuldade física: a refração desloca a posição aparente dos objetos observados através da superfície. Experimentos com a espécie indicam que uma abertura maior da boca durante o salto pode ajudar a compensar essa incerteza, já que nem todas as tentativas contra presas aéreas acertam o alvo.

O que a aruanã-prateada realmente pode capturar durante esses saltos?
A dieta é muito mais ampla do que apenas peixes. Há registros de insetos, aranhas, crustáceos, pequenos vertebrados e outros itens. O Smithsonian National Zoo descreve a alimentação da espécie e seu comportamento de salto, incluindo ataques contra pequenos animais associados à vegetação próxima da água.
| Tipo de alimento | Evidência na dieta |
|---|---|
| Insetos e outros artrópodes | Muito frequentes |
| Peixes | Capturados principalmente próximo à superfície |
| Pequenos vertebrados terrestres | Registrados ocasionalmente |
| Pequenas aves | Podem ser capturadas em galhos baixos |
Não há, porém, base sólida para afirmar que esses saltos sejam especificamente uma estratégia noturna. As fontes descrevem a caça junto às margens, áreas inundadas e vegetação sobre a água, mas não estabelecem a noite como condição necessária. Por isso, o comportamento mais bem documentado é o ataque próximo à superfície, independentemente de transformar a falta de luz em elemento central da explicação.
Por que esse peixe consegue explorar alimento que outros predadores deixam escapar?
A capacidade de saltar amplia verticalmente a área de alimentação. Enquanto muitos peixes ficam limitados às presas submersas, a aruanã consegue explorar organismos localizados sobre a superfície ou na vegetação imediatamente acima dela. Durante as cheias amazônicas, quando a floresta fica parcialmente inundada, essa característica oferece acesso ainda maior a insetos e outros animais terrestres.
Essa caça também mostra que o salto não é um movimento descontrolado. Estudos cinemáticos revelam aceleração antes da saída, movimentos específicos das mandíbulas e diferenças claras entre ataques aquáticos e aéreos. É uma estratégia especializada para explorar justamente a estreita faixa onde rio e floresta se encontram.
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