A inércia da campanha é aliada de Flávio Bolsonaro
Falta de fatos novos ajudam o candidato do PL e mostram que Lula é quem tem mais a perder com o noticiário
O levantamento BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira, 24, mostra um empate técnico entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). No segundo turno, a distância é ainda menor: 46% a 45% para Lula.
Mais importante do que os números isolados é a direção do movimento. Na rodada anterior, Lula tinha 41% e Flávio, 36%, no primeiro turno. Agora, o presidente permaneceu onde estava, enquanto o senador oscilou um ponto para cima. Na simulação de segundo turno, Lula caiu de 47% para 46%, enquanto Flávio avançou de 44% para 45%.
Não é uma virada — e seria precipitado tratá-la como tal. Mas é um sinal de estabilidade que favorece quem está tentando alcançar o líder.
A razão é simples: campanhas eleitorais são, em boa medida, disputas pelo controle da agenda. Quando um candidato está atrás, ele precisa produzir fatos novos para mudar a percepção do eleitor. Quando consegue se aproximar e, depois, passa a sobreviver a semanas politicamente turbulentas sem perder terreno, a própria estabilidade passa a trabalhar a seu favor.
É exatamente o que começa a acontecer com Flávio.
Quando o caso “Dark Horse” veio à tona, houve um efeito mensurável sobre a candidatura. Em maio, levantamento BTG/Nexus mostrou que a parcela dos eleitores que dizia ter voto decidido em Flávio havia caído de 74% para 71%, enquanto a certeza de voto em Lula subira de 74% para 81%. A rejeição a Flávio também avançara de 48% para 50%.
Os dados mais recentes sugerem que uma parte importante da resposta já foi incorporada pelo eleitor. O escândalo não desapareceu, mas deixou de produzir, pelo menos até aqui, uma deterioração progressiva da candidatura.
É o que se poderia chamar de precificação eleitoral do fato negativo.
Não significa que o eleitor tenha absolvido Flávio, nem que tenha considerado o episódio irrelevante. Significa algo mais pragmático: uma parcela do eleitorado já incorporou o caso à sua avaliação do candidato. Para produzir uma nova queda significativa, seria necessário que surgissem elementos adicionais capazes de alterar essa avaliação.
Sem isso, a tendência é que o assunto perca poder marginal.
O mesmo raciocínio vale para Lula, mas em sentido inverso.
O presidente continua liderando o primeiro turno, mas sua vantagem foi reduzida a quatro pontos no BTG/Nexus. E, no segundo turno, a distância chegou a apenas um ponto.
Para quem está na frente, estabilidade também pode ser uma armadilha.
Lula precisa preservar sua vantagem e, ao mesmo tempo, impedir que Flávio transforme o segundo turno em uma eleição de rejeição ao governo. A estratégia petista tende, portanto, a depender da capacidade de manter o adversário sob pressão e de produzir uma narrativa capaz de aumentar a rejeição ao candidato do PL.
O problema é que existe um limite para essa estratégia. Se as acusações já foram suficientemente assimiladas pelo eleitor, repetir o mesmo ataque pode ter rendimento decrescente.
A eleição, afinal, não é vencida apenas por quem cresce. Também pode ser perdida por quem deixa de cair.
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Comentários (1)
Joaquim Duran
24.08.2026 16:06Na verdade, quem tem mais a perder com o noticiário é o leitor/eleitor.