Durante a Segunda Guerra, sonares começaram a mostrar um segundo fundo do mar que subia todas as noites, até descobrirem que uma enorme camada de animais estava se movendo
Bilhões de organismos sobem durante a noite e retornam às profundezas ao amanhecer, criando um falso fundo detectável pelo sonar
Durante a Segunda Guerra Mundial, operadores de equipamentos acústicos começaram a registrar algo aparentemente impossível: o fundo do oceano parecia estar centenas de metros mais próximo durante certas horas e mudava de posição entre o dia e a noite. A explicação não estava no relevo submarino, mas em uma enorme concentração de organismos conhecida como deep scattering layer, capaz de refletir o som quase como se fosse um segundo fundo do mar.
Como o deep scattering layer enganou os primeiros sistemas de sonar?
Os sonares e ecobatímetros enviam pulsos acústicos pela água e medem o eco retornado pelos objetos encontrados no caminho. Durante a década de 1940, registros começaram a mostrar uma forte camada refletora aproximadamente entre 300 e 500 metros em algumas regiões, muito acima do fundo verdadeiro.
O detalhe mais intrigante era que essa camada não permanecia parada. Durante a noite, ela subia para águas mais rasas; ao amanhecer, voltava a descer. Pesquisas realizadas durante e logo depois da guerra demonstraram que os ecos não vinham de ilhas desconhecidas nem de uma camada geológica, mas de enormes concentrações de organismos marinhos.
Quais animais formam esse falso fundo que sobe durante a noite?
Não existe uma única espécie responsável. A camada reúne diferentes organismos da zona mesopelágica, e sua composição muda conforme região, profundidade e horário. Pequenos peixes são especialmente importantes porque estruturas cheias de gás, como suas bexigas natatórias, refletem muito bem as ondas sonoras.
Entre os animais encontrados nessas concentrações estão:
- Peixes-lanterna e outros pequenos peixes mesopelágicos.
- Camarões e diversos crustáceos.
- Lulas e outros cefalópodes.
- Águas-vivas e organismos gelatinosos.
- Diferentes grupos de zooplâncton.
Este vídeo do Nautilus Live explica diretamente a migração vertical diária e mostra por que uma enorme quantidade de organismos deixa as profundezas durante a noite e retorna antes do amanhecer.
Por que o deep scattering layer sobe todas as noites?
Grande parte desse movimento está relacionada à combinação entre alimentação e proteção contra predadores. Durante o dia, muitos animais permanecem em regiões profundas e escuras, onde ficam menos visíveis para predadores que dependem da visão. Depois do pôr do sol, começam a subir centenas de metros.
Próximo da superfície existe maior disponibilidade de fitoplâncton e de organismos que dele se alimentam. Os migradores aproveitam a escuridão para buscar alimento e, pouco antes do amanhecer, iniciam a descida novamente. Esse ciclo é chamado de migração vertical diária ou migração vertical diel.
Até que distância essa camada consegue subir e descer?
A profundidade não é fixa. Em registros modernos, camadas de organismos podem permanecer perto de 300 a 500 metros durante o dia e subir para aproximadamente 100 metros durante a noite. Em outros lugares, animais percorrem distâncias ainda maiores dentro da zona mesopelágica.
| Momento | Comportamento típico |
|---|---|
| Dia | Organismos permanecem em águas mais profundas |
| Entardecer | A camada começa a subir |
| Noite | Muitos animais alcançam águas mais rasas |
| Amanhecer | O movimento se inverte e a camada desce |
O deslocamento também pode variar com luminosidade, presença da Lua, disponibilidade de alimento e risco de predação. Portanto, o “segundo fundo” nunca foi uma superfície rígida: era uma concentração móvel de vida respondendo às condições ambientais.
Por que o deep scattering layer é considerado uma das maiores migrações da Terra?
A escala é enorme. Todos os dias, bilhões de organismos realizam movimentos verticais sincronizados em grandes partes dos oceanos. Quando considerados número de indivíduos, biomassa e extensão geográfica, pesquisadores descrevem o fenômeno como a maior migração organizada de animais do planeta.
A NOAA Ocean Exploration explica que essas camadas estão presentes em diferentes bacias oceânicas e que sua movimentação pode ser acompanhada por instrumentos acústicos. Hoje, o mesmo tipo de tecnologia que criou o mistério ajuda cientistas a medir a concentração e o comportamento desses animais.

Por que esse movimento diário também interfere no carbono do oceano?
Quando os animais sobem, alimentam-se de matéria produzida perto da superfície. Depois, carregam parte desse carbono para profundidades maiores, onde respiram, excretam resíduos ou são consumidos por outros organismos. Assim, a migração ajuda a transportar carbono verticalmente pelo oceano.
O deep scattering layer transformou uma anomalia militar em uma das descobertas mais marcantes da oceanografia moderna. O fundo nunca estava subindo: eram enormes concentrações de peixes, crustáceos, lulas e outros organismos movendo-se diariamente através de centenas de metros de água.
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