13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo
O território pequeno ajuda a explicar a concentração impressionante de moradores
Quem atravessa a divisa entre a zona oeste da capital paulista e o município vizinho não encontra rio, morro ou faixa de mata para marcar a mudança. As ruas continuam, o comércio continua, o trânsito continua. O que muda é a estatística: Taboão da Serra concentra quase 274 mil moradores em pouco mais de 20 km² e registra a maior densidade demográfica entre os 5.570 municípios brasileiros, em um território que não tem sequer um trecho classificado como área rural.
Por que Taboão da Serra ficou tão apertada?
Por uma combinação de território minúsculo e crescimento acelerado. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Censo 2022 contou 273.542 moradores em uma área de 20,39 km², o que resulta em 13.416,81 habitantes por km² e em um grau de urbanização de 100%.
O número só ganha peso na comparação. A média nacional fica perto de 23 habitantes por km², ou seja, cabe em Taboão, a cada quilômetro quadrado, quase 600 vezes mais gente do que a média do país. A cidade também é mais densa que a própria capital paulista e que qualquer outro município da Região Metropolitana. Para efeito de escala, o território inteiro do município é menor do que muitos bairros de São Paulo, e nele mora uma população equivalente à de cidades médias como Petrópolis ou Governador Valadares.

De onde vem o nome e como nasceu o município
O nome vem de uma planta de brejo. Segundo a Prefeitura de Taboão da Serra, o termo aparece em documentos oficiais desde o século XVIII e se refere à taboa, o chamado capim dos brejos, que crescia em pontos alagados como o encontro do córrego Poá com o Pirajuçara. Os indígenas de língua tupi chamavam a mesma planta de peri-peri.
A cidade não nasceu ao redor de uma igreja, como a maioria dos municípios paulistas, e sim de três núcleos separados. Um deles se formou em torno do Instituto Pinheiros, fábrica de vacinas que funcionou entre as décadas de 1930 e 1960 nos moldes do Instituto Butantan e industrializou a região. Foram funcionários dessa indústria, junto de oleiros e comerciantes, que articularam a Comissão dos 9, grupo responsável por levar o pedido de emancipação à Assembleia Legislativa. A Lei 5.121, aprovada em 31 de dezembro de 1958, criou o município, e a data oficial de aniversário ficou em 19 de fevereiro de 1959. O primeiro prefeito eleito, Nicola Vivilechio, venceu por 54 votos em uma cidade que tinha então cerca de 4 mil habitantes.
A primeira prefeita eleita do país governou aqui
Quatro anos depois daquela primeira eleição, Laurita Ortega Mari venceu a disputa municipal de 1963 e assumiu no ano seguinte. De acordo com a Câmara Municipal de Taboão da Serra, ela foi a primeira mulher eleita prefeita no Brasil após a redemocratização iniciada em 1946, feito que rendeu à cidade uma honraria própria.
Nascida no Rio de Janeiro em 1908, Laurita chegou à região quando o marido montou um negócio avícola na antiga Vila Poá. No governo, montou o primeiro serviço de assistência social do município, em convênio com a paróquia local, e ficou conhecida entre os moradores mais antigos como a prefeita que cuidava dos pobres. Hoje uma avenida leva seu nome, e a Medalha Laurita Ortega Mari, incluída no calendário oficial da cidade em 2017, é entregue todo mês de março a mulheres que prestaram serviços relevantes ao município.
Sem espaço para os lados, a saída é o metrô
Uma cidade totalmente urbanizada não tem terreno vago para esticar, então cresce para cima e depende da conexão com a vizinha. É aí que entra a maior obra da região. O Governo do Estado de São Paulo informa que o aditivo assinado com a concessionária ViaQuatro destina R$ 4,04 bilhões à extensão da Linha 4-Amarela: 3,3 km de via ligando a estação Vila Sônia às futuras estações Chácara do Jockey e Taboão da Serra, além de seis novos trens e mais de 3,7 mil empregos previstos.
O projeto tem peso internacional. Conforme o Banco Mundial, que aprovou US$ 400 milhões em financiamento, será a primeira vez que a rede do metrô paulistano ultrapassa os limites da capital. Não é a única obra bilionária a redesenhar a mobilidade paulista neste momento: o litoral do estado prepara o primeiro túnel imerso da América Latina, entre Santos e Guarujá.
Uma cidade que aprendeu a caber em 20 km²
Taboão da Serra é o retrato mais concentrado da urbanização brasileira. Um município sem área rural, colado a uma metrópole, que elegeu a primeira prefeita do país no voto direto e agora espera o metrô que vai encurtar em minutos um trajeto hoje medido em horas de ônibus.
Cruze a divisa a pé, sem procurar a placa, e sinta o ritmo de uma cidade que nunca teve espaço para se espalhar e mesmo assim não parou de crescer.
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