Construída em formato de leque: a única capital brasileira totalmente no Hemisfério Norte que foi desenhada com suposta inspiração nas ruas de Paris
O traçado urbano cria uma paisagem diferente da maioria das capitais brasileiras
Quem pousa em Boa Vista espera floresta e encontra avenidas largas que se abrem de uma praça central como as varetas de um leque. A capital de Roraima é a mais ao norte do país, a única inteiramente acima da Linha do Equador, carrega uma lenda urbana que circula há décadas sobre a origem desse desenho e hoje lidera um ranking nacional de serviços públicos entre as 27 capitais.
Afinal, Boa Vista foi mesmo inspirada em Paris?
Não foi. A versão de que o traçado em leque copiou as avenidas radiais de Paris virou tradição em Roraima, mas foi desmentida pela própria família de quem projetou a cidade. O engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson desenhou o plano entre 1944 e 1946, e a inspiração real veio de outro lugar.
Durante as comemorações do centenário do pai, o arquiteto Darcy Romero Derenusson contou à Folha de Boa Vista que o projeto seguiu o conceito de cidade-jardim, modelo urbanístico formulado por Ebenezer Howard no fim do século XIX, que propunha unir os serviços da cidade grande ao verde do campo. Segundo ele, o desenho nada tinha a ver com a capital francesa.

O leque que na verdade conversa com Goiânia
A referência mais próxima de Boa Vista está dentro do próprio Brasil. Estudos sobre o urbanista mostram que o plano dialoga com Goiânia, projetada por Atílio Correia Lima, com quem Derenusson teve contato ao trabalhar no plano diretor de Volta Redonda.
A semelhança aparece até nos nomes: o coração de Goiânia é a Praça Cívica, e o de Boa Vista é o Centro Cívico Joaquim Nabuco, de onde partem as avenidas radiais. A capital roraimense foi a terceira do país a nascer planejada, depois de Belo Horizonte e da própria Goiânia. O traçado foi pensado para durar 25 anos, e uma regra curiosa moldou a paisagem: nenhum prédio poderia ter altura maior que metade da largura da rua, o que manteve a cidade baixa, ventilada e com horizonte aberto em quase todas as esquinas.
A única capital acima da Linha do Equador
Boa Vista é a única capital brasileira totalmente no Hemisfério Norte. As demais ficam sobre a Linha do Equador ou abaixo dela, o que torna a cidade um caso único no mapa do país, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A posição setentrional vem acompanhada de outro título: é a capital mais distante de Brasília e a mais próxima de duas fronteiras internacionais, com a Venezuela ao norte e a Guiana a leste. Essa localização explica a mistura de línguas e sotaques que define o cotidiano da cidade, às margens do Rio Branco, e ajuda a entender por que o calendário de chuvas ali é invertido em relação ao restante do Brasil, com o período úmido concentrado no meio do ano.

A capital que mais cresce no Brasil
Boa Vista lidera o ritmo de crescimento entre todas as capitais. Pela estimativa do IBGE, a cidade tinha 485.477 moradores, com alta de 3,26% em um único ano, a maior taxa do país no período.
O avanço é puxado pela migração, em especial pela chegada de venezuelanos pela fronteira. A capital concentra cerca de dois terços de toda a população de Roraima, grau de centralidade raro entre os estados brasileiros. Esse caldeirão de influências indígenas, nordestinas e venezuelanas rendeu um título recente: pela Lei nº 15.195, de 2025, a cidade passou a ser oficialmente a Capital Nacional da Paçoca de Carne com Farinha, prato de carne seca socada no pilão com farinha de mandioca.
Que reconhecimentos colocam a cidade no mapa nacional?
O mais recente é uma primeira colocação entre todas as capitais. Segundo a Prefeitura de Boa Vista, a capital ficou em primeiro lugar no ranking de serviços públicos do Instituto Veritá, levantamento que avaliou 51 indicadores e destacou limpeza urbana, zeladoria, educação e lazer, deixando para trás nomes tradicionais como Curitiba e Vitória. Confira abaixo outros títulos acumulados pela cidade:
- Selo Unicef: conquistado pela quarta vez consecutiva, conforme a Prefeitura, certificação que o município mantém desde 2009.
- Capital da Primeira Infância: o programa Família que Acolhe, criado em 2013, já acompanhou mais de 37 mil gestações e virou referência estudada por instituições de fora, entre elas a Fundação Bernard van Leer, da Holanda.
- Mapa do Turismo Brasileiro: a capital integra a lista do Ministério do Turismo e já foi apontada pela pasta como um dos 25 destinos de tendência do país.
- Limpeza e espaços públicos: as praças revitalizadas viraram o principal cartão de visitas da gestão urbana, tema recorrente nas avaliações que colocaram a cidade no topo nacional.
Reconhecimentos assim aproximam a capital roraimense de outras cidades que fizeram do bem-estar urbano uma marca, como a capital mais arborizada do Brasil, no Centro-Oeste.
Quem deseja conhecer os atrativos da única capital brasileira no Hemisfério Norte, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 31 mil visualizações, onde o canal mostra um roteiro de 1 dia pelos principais pontos turísticos de Boa Vista – Roraima:
Conheça a capital que se abre como um leque
Boa Vista desmonta a ideia de que o extremo norte do Brasil é só floresta e isolamento. Avenidas planejadas, um leque urbano improvável, praças que viraram referência nacional e uma história que separa o mito da cidade real fazem dela uma das capitais mais singulares do país.
Você precisa cruzar a Linha do Equador e conhecer Boa Vista, a capital onde o desenho das ruas guarda uma lenda que vale a pena desfazer no lugar.
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