Josias Teófilo na Crusoé: Herdar é um processo ativo
Os versos de Goethe mostram a herança (cultural, espiritual) não como recepção passiva do passado, mas como conquista, interpretação e transformação do legado em realização presente
Antes de filmar meu primeiro curta, o Quarteto simbólico – título inspirado na obra de Villa-Lobos composta em 1921 –, o documentário sobre o arquiteto Delfim Amorim apareceu-me, pronto, num sonho.
Ao filmá-lo, tentei apenas reproduzir – era impossível fazê-lo totalmente – o filme surgido completo naquela noite, e parcialmente perdido pela manhã. Não é impossível, porém, fazer filmes como sonhos. Sokurov já o fez.
Concebi o curta-metragem de modo que a constatação exposta no relato final de Luiz Amorim (sobre o ato simbólico de não preservar) se resolveria, idealmente, pela epígrafe que abre o filme, de Johann Wolfgang von Goethe: “Aquilo que herdastes dos teus pais, / Conquista-o para fazê-lo teu.
Nela está condensada poeticamente a solução para o problema da consciência coletiva sobre a conservação. Para a pergunta “como conservar?”, ou “como criar a consciência para a conservação?”, eu responderia imediatamente: “tomando posse daquilo que se herdou, conquistando-o”, o que envolve a educação patrimonial, a formação do gosto.
Essa relação circular entre o fim e o início do filme talvez nenhum espectador tenha notado, coisa que eu previ (faz parte da vaidade de um artista iniciante compor relações internas, subjacentes, que nunca serão acessadas, a não ser depois de um comentário esclarecedor).
Usar epígrafe num filme, entretanto, é algo perigoso, como diz Eduardo Escorel: “Citações no início de filmes desmerecem quem apela para tamanha banalidade”.
É arriscado, além disso, usar frases isoladas do seu contexto, ainda mais de um grande espírito. Esses dois versos de Goethe, contudo, individualizaram-se pelas referências de Schopenhauer, Freud, Lacan, Weil – para citar alguns. Tratarei dos dois primeiros, cujo pensamento parece convergir diretamente ao meu tema.
Schopenhauer cita os versos no ensaio Pensar por si mesmo, de 1851, em que ele defende que a leitura não passa de um substituto para o pensamento próprio. Ele diz: “Às vezes é possível desvendar, com muito esforço e lentidão, por meio do próprio pensamento, uma verdade, uma ideia que poderia ser encontrada confortavelmente pronta num livro. No entanto, ela é cem vezes mais valiosa quando obtida por meio do próprio pensamento”.
Parece-me…
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