Nas montanhas do Himalaia existe um lago a mais de 5.000 metros de altitude cercado por restos humanos de diferentes épocas, e análises genéticas mostraram que algumas pessoas morreram ali com séculos de diferença
DNA antigo revelou grupos do sul da Ásia e do Mediterrâneo oriental entre esqueletos separados por aproximadamente mil anos
A 5.029 metros de altitude, no estado indiano de Uttarakhand, o Lago Roopkund ficou famoso pelos restos de centenas de pessoas espalhados dentro e ao redor de sua pequena bacia. Durante décadas, imaginou-se que todos tivessem morrido juntos em algum desastre antigo, mas DNA e datações por radiocarbono revelaram uma história muito mais estranha: grupos de origens diferentes chegaram ao local separados por aproximadamente mil anos.
O que as análises do Lago Roopkund revelaram sobre os esqueletos?
Um estudo publicado em 2019 analisou DNA do genoma inteiro de 38 indivíduos encontrados em Roopkund e conseguiu separar essas pessoas em três grupos geneticamente distintos. Vinte e três apresentavam ancestralidade dentro da diversidade atual do sul da Ásia, enquanto 14 formavam um grupo inesperadamente próximo de populações do Mediterrâneo oriental.
O indivíduo restante apresentava ancestralidade relacionada ao Sudeste Asiático. O resultado eliminou a ideia simples de que todos os mortos pertenciam a uma única expedição, exército ou comunidade local que desapareceu simultaneamente na montanha.
Quando as diferentes pessoas morreram no Lago Roopkund?
A datação por radiocarbono tornou o mistério ainda maior. Os indivíduos com ancestralidade sul-asiática foram situados principalmente entre os séculos VII e X d.C. Já os 14 indivíduos ligados geneticamente ao Mediterrâneo oriental e a pessoa com ancestralidade relacionada ao Sudeste Asiático pertenciam a um período aproximadamente mil anos mais recente.
Os principais resultados foram:
- 38 indivíduos tiveram DNA genômico analisado.
- 23 apresentavam ancestralidade relacionada ao sul da Ásia.
- 14 possuíam ancestralidade típica do Mediterrâneo oriental.
- 1 apresentava ancestralidade relacionada ao Sudeste Asiático.
- As mortes ocorreram em pelo menos dois períodos separados por cerca de mil anos.
Este vídeo da BBC é dedicado especificamente ao “Lago dos Esqueletos” e mostra como as análises científicas modificaram as antigas explicações sobre quem morreu em Roopkund.
De onde vieram as pessoas encontradas no Lago Roopkund?
Os indivíduos mais antigos não constituíam um grupo geneticamente uniforme. A ancestralidade deles se encaixa na diversidade sul-asiática, mas com diferenças suficientes para indicar que provavelmente não pertenciam todos a uma única população fechada. Roopkund fica próximo de uma rota moderna de peregrinação associada à deusa Nanda Devi, o que oferece uma possível explicação para parte dessas mortes.
O grupo mais recente é muito mais difícil de explicar. Geneticamente, os 14 indivíduos apresentam maior afinidade com populações atuais do Mediterrâneo oriental, particularmente aquelas próximas de Creta. Isso não prova que tenham vindo da própria ilha de Creta, mas indica que eles ou seus ancestrais recentes provavelmente tinham origem naquela região.
Uma tempestade de granizo matou todos os esqueletos encontrados ali?
Uma explicação popular sustentava que um único grupo teria sido surpreendido por uma tempestade devastadora de granizo. Alguns esqueletos apresentam fraturas de compressão não cicatrizadas, e tempestades violentas realmente acontecem nessa região do Himalaia. Entretanto, as novas datações mostram que uma única tempestade não pode explicar todos os restos.
| Grupo analisado | Resultado principal |
|---|---|
| Roopkund A | 23 pessoas de ancestralidade sul-asiática |
| Roopkund B | 14 pessoas ligadas ao Mediterrâneo oriental |
| Roopkund C | 1 pessoa com ancestralidade do Sudeste Asiático |
| Cronologia | Eventos separados por aproximadamente 1.000 anos |
Os próprios pesquisadores ressaltaram que outras causas continuam possíveis para as lesões. Além disso, os indivíduos sul-asiáticos podem não ter morrido todos exatamente no mesmo episódio, já que algumas faixas de datação não se sobrepõem.
Por que pessoas do Mediterrâneo chegaram a esse ponto do Himalaia?
Essa é atualmente uma das perguntas mais intrigantes. O lago não está localizado em uma grande rota comercial histórica que explique facilmente a presença de viajantes mediterrâneos. Também havia homens e mulheres no grupo, sem relações familiares próximas detectadas entre os indivíduos analisados.
O estudo publicado na Nature Communications concluiu que eles provavelmente nasceram no Mediterrâneo oriental e viajaram para o Himalaia durante um período situado entre os séculos XVII e XX. Por que realizaram uma jornada tão incomum e o que causou suas mortes continuam sem explicação definitiva.

O que ainda permanece sem resposta sobre os esqueletos?
A ciência resolveu uma parte importante do mistério ao demonstrar que Roopkund não representa uma única catástrofe. Pelo menos dois grandes períodos de deposição estão separados por aproximadamente mil anos, e até o grupo mais antigo pode reunir mais de um episódio.
Ainda falta descobrir por que grupos tão diferentes chegaram ao mesmo pequeno lago de alta montanha e como exatamente morreram. O local também foi perturbado ao longo do tempo por deslizamentos, visitantes e retirada de objetos, dificultando reconstruções arqueológicas mais precisas e deixando parte da história provavelmente perdida para sempre.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)